Mariel, um bom negócio?

Você que investe na educação de seus filhos muitas vezes uma pequena fortuna, privando-se de fazer o passeio dos seus sonhos ou comprar aquele carro tão cobiçado, não sabe se esse investimento terá retorno. Mas tem uma expectativa razoável de que haja um resultado ótimo, na forma de uma descendência sadia e com mais oportunidades de conquistar as oportunidades que a vida oferece, não é?

Assim é com o Brasil, que teoricamente poderia investir na melhoria de seus portos e rodovias os mesmos US$ 682 milhões aplicados na melhoria do porto cubano de Mariel. Mas é uma forma de conquistar uma cabeça-de-ponte na América Central, próxima ao Canal do Panamá e aos Estados Unidos, um lugar que dentro de alguns anos pode ser um apoio muito estratégico nos nossos negócios mundiais.

Não deixa de ser uma aposta, mas é uma boa aposta, dentro dos cenários hoje disponíveis do desenvolvimento do comércio internacional. Em poucos anos, Cuba precisará adotar um novo modelo de negócios, implicando também num outro modelo político, talvez parecido em certos aspectos com o “social-capitalismo” chinês. Recorde-se ainda que, mais que um porto, Mariel é uma zona especial de desenvolvimento econômico, plataforma para a instalação de empresas de tecnologia.

O valor investido pelo BNDES, na verdade, nem saiu do país, oficialmente, pois foi utilizado por empresas aqui sediadas, encarregadas da instalação desse porto, além de gerar empregos no país (156 mil entre diretos, indiretos e induzidos) e exportação de insumos nacionais. Implica ainda na entrada de mais US$ 120 milhões em recursos externos para financiar a exportação de bens e serviços, além do financiamento nacional Se existirem manobras com os recursos, é história para policiais, não para planejadores.

Muita chiadeira em relação ao porto de Mariel é política partidária, oposição pelo simples fato de querer se opor a qualquer programa dos adversários. Também há muitos interesses contrariados. E existem ainda os desinformados, afirmando que o dinheiro poderia ser usado para outra coisa: esquecem que o problema no Brasil não é a disponibilidade de recursos: ora faltam projetos consistentes para usá-los, ora falta o consenso político que permita empregá-los, ora falta a vontade de completar o que já foi iniciado por outrem.

Podiam ser esses recursos usados em Educação, Saúde, Segurança… mas quantos projetos existem no País que, além de serem bons (e não apenas esquemas para amigos faturarem), conseguem consenso para aprovação entre políticos com tantos interesses particulares em jogo? Há muito dinheiro parado por falta desse consenso ou perdido por falhas de projeto ou de execução, pelo simples abandono da obra recém-começada, ou ainda porque, depois de pronta a estrutura física, faltam funcionários, móveis ou a decisão de colocá-la em uso. O porto cubano é apenas a opção que conseguiu avançar, entre tantas outras (talvez melhores) que vão ficando pelo caminho.


Porto de Mariel, em vista aérea

Mariel abre portas para o Brasil num lugar estratégico do mundo, ok. Mas o Mercosul também deveria abrir portas e elas estão fechadas. Inúmeros mercados estão abandonados ou sequer começaram a ser explorados. Muitas oportunidades são perdidas por falta de um trabalho com foco e persistência, não só do governo, mas de empresas que preferem o lucro fácil imediato (e às vezes sem futuro) a um programa de longo prazo de conquista e manutenção de mercados.

Mariel será um desses programas abandonados no meio do caminho, após o lucro fácil inicial? Será um trabalho bem feito ou adernará como uma plataforma de petróleo? Frutificará como resultado de uma visão de longo prazo? Do mesmo modo que nas bolsas de valores ou nas corridas de cavalos, o problema não é a análise do cenário e das perspectivas, mas o desempenho posterior: façam as suas apostas, senhores.

 

Logo Portogente

por Carlos Pimentel

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