Crescimento mais lento da China força reajustes na economia global

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Nas últimas décadas, o mundo passou a depender do crescimento econômico de quase dois dígitos gerado pela China. Mas agora o governo e economistas do gigante asiático querem transmitir uma mensagem diferente: Esses dias ficaram para trás.

A China vai definir hoje uma meta de crescimento em sua sessão legislativa anual, durante a qual o governo estabelece políticas para o ano. A maioria dos economistas espera uma taxa próxima a 7,5%, a mesma do ano passado. Isso estaria bem longe da média de crescimento anual de 9,9% registrada pelo país ao longo dos últimos 30 anos —, à medida que o comércio global florescia, os mercados de commodities cresciam e centenas de milhões de pessoas saíam da faixa de pobreza.

Os economistas dizem que é hora de reduzir as expectativas.
“Todo mundo precisa se ajustar, não só estruturalmente, mas psicologicamente”, diz Karlis Smits, economista do Banco Mundial. “A nova norma é moderação do crescimento. E isso é positivo.”

Paradoxalmente, um crescimento mais lento agora poderia alimentar expansão mais rápida no futuro, dizem economistas, desde que a transição não seja muito abrupta e os líderes chineses usem o respiro para criar empregos de alta qualidade, promover uma reforma agrária e trabalhista e revisar políticas fiscais que criam distorções.

A desaceleração da China é em parte auto-imposta e em parte estrutural. Numa tentativa de manter o crescimento elevado, o país injetou enormes quantidades de crédito em toda a economia nos últimos anos, o que deu origem a empresas estatais inchadas, projetos de infraestrutura duvidosos e um excesso de capacidade na indústria, mesmo enquanto os níveis de poluição disparavam e o poder de escolha do consumidor era limitado.

Estruturalmente, a China tem seguido um caminho bem testado por outras economias, desde o Japão até a Coreia do Sul e a Malásia. Após um surto inicial, os ganhos fáceis de produtividade gerados pela migração de trabalhadores rurais para as fábricas — e complementados pelo acesso à tecnologia e mercados estrangeiros — devem declinar, o que levaria a uma inevitável desaceleração. O que é de impressionar, no entanto, é o fato de que um país tão grande tenha conseguido navegar essa onda de crescimento por tanto tempo.

Entre os pontos que serão acompanhados de perto nas reuniões desta semana estão os programas-piloto que dão mais flexibilidade aos agricultores chineses para vender ou arrendar suas terras, o agravamento da crise ambiental do país e medidas para lidar com os problemas da dívida de governos locais.

O governo comunista está sob pressão para manter o crescimento elevado para gerar empregos para dezenas de milhões de jovens, aliviar as tensões sociais e permanecer no poder. Embora Pequim provavelmente possa alcançar um crescimento de 8% este ano ao manter abertas as torneiras de crédito, dizem os economistas, isso agravaria os problemas de dívida em toda a economia e do setor bancário paralelo, conhecido como “shadow banking”. A meta mais realista, dadas as atuais condições econômicas e a necessidade de reforma, é de 7% ou mesmo 6,5%, dizem muitos.

Inúmeros países gostariam de ter esse nível de crescimento, mas, para a China, administrar a desaceleração em um país tão grande e complexo apresenta enormes desafios. O Banco Mundial e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do governo chinês projetam um declínio na média de crescimento anual da China, de 8,6% durante o período entre 2011 e 2015 para 5% entre 2026 e 2030.
Isso supondo que a China não sofra um grande choque e que faça reformas para dar aos vencedores econômicos, como empresas de tecnologia, empreendedores e indústrias de serviços — e não minas pouco desenvolvidas e fábricas estatais inchadas bem conectadas com os círculos do poder — acesso preferencial a capital e equipamentos.

Um crescimento mais lento na China vai provavelmente reduzir o comércio global e o crescimento econômico mundial, um reflexo da posição do país como o país de maior volume de comércio do mundo, a segunda maior economia e o maior motor de crescimento.

Durante o seu apogeu, entre 2002 e 2007, após ter aderido à Organização Mundial do Comércio, a China viu suas exportações subirem em média 29% ao ano, ajudando a alimentar um crescimento de 3,4% da economia mundial, uma das maiores médias de expansão global num período de seis anos.

Entre os maiores beneficiários estrangeiros da ascensão estelar da China estão os países produtores de commodities, muitos dos quais estão hoje em dificuldade.

Em Bangka e Belitung, duas ilhas da Indonésia, as paradisíacas praias de areia branca e palmeiras ocultam problemas. A área produz a maior parte do estanho indonésio — o nome da australiana BHP Billiton BLT.LN +1.15%foi parcialmente inspirado em Belitung — e o apetite reduzido da China está dando dores de cabeça a Johan Murod, dono da mina PT Babelionia Internasional, cujo faturamento encolheu cerca de 25% desde o ano passado.

Para tentar sobreviver, ele cortou as viagens de negócios na empresa e vem usando lotes de terra da mina para criar gado, peixes e cultivar espinafre.
O problema não se limita ao estanho; a demanda chinesa por óleo de palma e pimenta da Indonésia também está em declínio.

“Se você vier aqui, vai ver bancos, lojas e cafés sem movimento agora porque muitas pessoas estão desempregadas ou vendo sua renda diminuir”, diz Murod. “O impacto da desaceleração da China é muito significativo.”
Mas a economia da China é hoje tão grande que a demanda continuará a ser substancial, mesmo que o crescimento do país desacelere.

Internamente, a China se vê diante de uma encruzilhada, agora que seu modelo de crescimento liderado por investimentos perde força. O desafio para o futuro, dizem economistas, inclui um relaxamento dos controles sobre as terras, trabalho e capital, o que seria uma mudança cultural para um governo que tem propensão ao controle.

Enquanto chineses mais velhos economizam e gastam com parcimônia, muitos nas gerações mais jovens estão cansados de recompensas tardias. “Eu vejo o consumo como um investimento em mim mesma”, diz a vendedora de produtos de beleza Huang Bingni, de 38 anos, que mora em Maanshan, no leste da China, e gasta boa parte de sua renda com cosméticos e roupas. “Eu agora quero ter uma vida boa”.

(The Wall Street Journal, 5/3/14)

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