Thatiana Pimentel

Uma guerra de oito meses e uma recuperação que pode demorar dez anos. É assim que os produtores da bacia leiteira pernambucana encararam a seca deste ano, considerada a pior dos últimos 50 anos. Mais de 500 mil cabeças de gado ficaram pelo caminho, assim como 70% da produtividade da cadeia do leite do Agreste, que representa 75% da produção do estado e é composta pelas cidades de Itaíba, Águas Belas, Buíque, Tupanatinga, Pedra e Venturosa. Mas o tempo de enterrar os cadáveres, contudo, ficou para trás. Setembro chega iluminando os primeiros passos dos pecuaristas rumo à superação. Dessa vez, a seca deixou uma lição valiosa que foi aprendida e pode salvar vidas no futuro.

Para retratar a peleja do "matuto" contra o sol e a falta de chuva, o Diario viajou cerca de mil quilômetros percorrendo o Vale do Ipanema, divisa do Agreste com o Sertão pernambucano. Encontramos um povo resiliente, que aprendeu a planejar e estocar ração para o gado, que descobriu oportunidades de crescer mesmo com a estiagem e uma solidariedade sem precedentes.

No caminho, percebe-se que as perdas e baixas dessa guerra são inevitáveis e é impossível não contar a história dos que desistiram. Um deles foi José Amaro, general sem armas que saiu da ativa e perdeu a esperança. “Não acredito em recuperação. O Agreste e Sertão estão de esmolas. Está tudo se acabando por aqui, acho que as coisas estão piorando. Está cada vez mais quente e tem cada vez menos água. Não quis ser resistência a isso. Com minha história, já sei que vamos ter muito sofrimento pela frente ainda”, explica.

Além da dor de desaprender o ofício em tão avançada idade, Amaro sabe que, se insistir, não terá ninguém para deixar o seu quepe de general. “A seca assusta. Meus filhos, que foram para a escola, não querem viver nessa luta. Quando eu morrer, em oito dias eles vendem tudo por telefone. Nem vão vir aqui.”

Correndo em outra direção, o dono da Fabrica Faco, Horácio Franca, que fica em Ribeirão, Zona da Mata, sofreu uma das maiores baixas dessa batalha e precisou demitir 40 dos seus 70 funcionários. Quase sobrepujado pela falta de leite, o fabricante usou uma arma de alto calibre para sobreviver: o leite e queijo de búfala e alimentos probióticos. “Precisei investir em itens de maior valor agregado. A qualidade para vencer a quantidade. Aproveitei que o gosto do pernambucano está mais apurado e estou diversificando meus produtos com foco nas classes A e B.”

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