A força criativa da periferia

Conheça a história da Altovolts, marca de equipamentos musicais da Bomba do Hemetério

THATIANA PIMENTEL / Diario de PE

Gilson e Neilton (D)vendem os equipamentosno Brasil e no exterior (FOTOS:TERESA MAIA/DP/D.A PRESS)

Siba, Cannibal, Dado Villa-Lobos, Cascabulho, Mombojó, Lirinha. O que eles têm em comum? Além de serem músicos e bandas reconhecidos dentro e fora do Brasil, todos são clientes da marca pernambucana Altovolts. A empresa foi criada pelo guitarrista da Devotos, Neilton Carvalho, que utiliza o termo “artesanato digital” para explicar a construção manual de pedais, caixas e amplificadores valvulados. Os itens são totalmente fabricados e comercializados em uma fábrica que ocupa apenas 30 metros quadrados de uma casa simples, na Rua do Rio, Bomba do Hemetério, Zona Norte do Recife. O tamanho da fábrica é inversamente proporcional ao sucesso. Os produtos custam entre R$ 400 e R$ 6 mil e a lista de espera, com clientes até dos Estados Unidos, varia entre três e seis meses.

Apesar disso, Neilton e seus dois sócios, Gilson Gerrard e Adriano Leão,  músicos e moradores da periferia recifense, não estão interessados em uma produção em larga escala, nem mesmo em abandonar a Bomba para expandir a fábrica. “Queremos levar nosso amor pela música a outras pessoas e aumentar a qualidade dos produtos. O certo é que não vamos abandonar a Bomba do Hemetério, porque é nossa história, nosso charme”, afirma Neilton.

Ele explica que sua veia empreendedora surgiu por causa de uma necessidade. “Quando tinha 17 anos, tocava com uma guitarra fuleira, que sempre dava bronca. Queria um instrumento melhor e resolvi fazer minha própria guitarra. Usei algumas peças novas e 70% de sucata e fiz.” Mas a inspiração veio de casa. Como não tinha condições de comprar brinquedos direto da loja, o pai do músico, seu Aécio, pegou algumas latinhas, pintou de preto, arrumou duas lâmpadas na sucata, tirou a pilha do radinho e montou um carro do batman para seus filhos, que acabou sendo objeto de desejo das crianças do bairro.

Em 2006, quando a marca Altovolts foi lançada, os trabalhos do trio eram menos ambiciosos. Eles pegavam amplificadores em sucatas e restauravam. Autodidatas, utilizaram a “engenharia reversa” para aprender tudo sobre os produtos e avançar. Para melhorar o visual dos amplificadores e das caixas, Neilton fez o curso de desenho de artes gráficas na Etepam e Adriano se formou em design gráfico pela UFPE.
Gilson, que já trabalhava com marcenaria, passou a cuidar do acabamento dos itens, investindo em um revestimento exclusivo de madeira com encaixe, com um resultado que lembra peças de marchetaria. Hoje, a empresa cuida de todos os detalhes, da matéria-prima ao teste no estúdio.

A marca é também um Grupo de Pesquisa de Tecnologias Mortas. Eles se propõem a desvendar os segredos da tecnologia das válvulas, técnica que conquista seguidores do mundo inteiro desde a popularização de amplificadores norte-americanos Fender e os ingleses Marshall, na década de 1960. “Somos os únicos do Nordeste a trabalhar com esses produtos. Nos inspiramos nos clássicos, mas sempre buscando inovações e agregamos traços regionais. Nossas linhas trazem referências daqui da Bomba. Nomes como tosco, gordo, maltrapilho, ácaro são constantes na nossa marca. Queremos levar a irreverência recifense para o mundo”, reforça Neilton.

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