Empreender cada vez mais

Montar o próprio negócio é uma ambição de cinco em cada dez brasileiros de até 30 anos, o que coloca o País em terceiro lugar no ranking mundial em número de empreendedores. Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), hoje o Brasil conta com 27 milhões de micro e pequenas empresas, que movimentam 25% do PIB, representam 40% da massa salarial e respondem por 52% da geração de empregos formais. Quem lidera essa onda de empreendedores são jovens da nova classe média, que representam 55,2% das empresas de pequeno porte, como mostrou uma pesquisa do Instituto Data Popular divulgada em novembro passado.

De olho na classe C: as empresárias (a partir da esq.) Sonia Santana, Daniela Romão

e Luzinete Ferreira na entrada do restaurante Costume Popular, na zona leste de SP,

reduto da nova classe média

Trata-se de um fenômeno tipicamente brasileiro, uma vez que a criação de novos negócios em outros países é liderada por faixas de renda mais altas. Hoje o empreendedorismo no País ganha fôlego como uma oportunidade, e não mais por necessidade, como sempre aconteceu nos períodos de crise e desemprego elevado. “Ao contrário do passado, hoje é possível fazer um plano de negócios para cinco ou dez anos”, diz Marcelo Spinelli, consultor de marketing do Sebrae, de São Paulo. A microempresária Liliana Dalmarco, 37 anos, tem exatamente o perfil médio do empreendedor brasileiro traçado pelo Sebrae. É jovem, cursou uma faculdade e pertence à nova classe média, com renda per capita familiar em torno de R$ 1.000.

Cansada dos altos e baixos de sua profissão – é formada em artes cênicas – e de olho num mercado de consumo que não para de crescer, ela decidiu exercitar sua criatividade na confecção de roupas infantis. Em 2010, Liliana montou um ateliê em Suzano, na Grande São Paulo, e passou a vender seus produtos em bazares e pela internet. A proximidade de eventos esportivos, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, abriu uma oportunidade derradeira para a sua marca, a Fofa Malagueta. “Criei uma linha com as cores e as características do Brasil”, diz Liliana, que apresentou a coleção na Feira do Empreendedor do Sebrae, em outubro. “Preciso encontrar lojistas que abracem a minha produção, pois vencer apenas no varejo dá muito trabalho e pouco retorno.”

A classe C no comando: Liliana Dalmarco tem o perfil médio do empreendedor traçado pelo Sebrae

Grávida de seis meses, a microempresária já traça os próximos passos. Se não encontrar um parceiro que coloque dinheiro no projeto, ela não descarta recorrer a financiamentos do BNDES ou de bancos comerciais para crescer. Muitos dos novos negócios que vêm sendo criados nos últimos anos também buscam a nova classe média como alvo. As sócias Sonia Santana, 48 anos, Luzinete Ferreira, 48, e Daniela Romão, 38, residentes no bairro de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, forte reduto da população de classe C, decidiram montar, em 2008, um espaço que une gastronomia e cultura. Batizado de Costume Popular, o restaurante vai além das refeições: ali, os clientes recebem aulas sobre os produtos consumidos e ainda podem fazer compras de artesanato.

Em 2010, o restaurante mudou-se para um amplo espaço alugado, graças aos R$ 30 mil doados pela Fundação Tide Setubal, que fomenta negócios na zona leste da capital paulista. “Utilizamos a maior parte do dinheiro para construir a nossa cozinha industrial”, diz Sonia, que também pretende procurar o BNDES e bancos comerciais para expandir o empreendimento. “Não há crescimento sem investimento”, afirma. As três sócias moraram no bairro durante décadas e viram a ascensão da nova classe média. “Quando estávamos ampliando o espaço, tivemos dificuldade em encontrar pedreiro na região, pois muitas casas estavam em reforma ao mesmo tempo”, diz Luzinete. Com mais dinheiro no bolso, a população do bairro passou a ter novas ambições.

“Essas famílias querem aprender gastronomia, a combinar o vinho com os pratos e até etiqueta”, diz Daniela. Segundo o Sebrae, vender para a nova classe média é o anseio de muitos empreendedores. “O risco é você não ter um produto ou serviço inovador e ser apenas mais um no mercado”, diz o consultor Spinelli. “Sem um diferencial, a saída é brigar pelo preço menor, o que aperta as margens.” No final do ano passado, o Sebrae-SP publicou uma cartilha com dicas de como vender para esse público. Entre as recomendações estão a venda pelo preço justo e o uso de uma linguagem igual à do cliente. “Nesse ponto, o empreendedor da classe C leva vantagem, pois tem os mesmos rituais sociais do seu consumidor.”

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