Perfil do profissional está mudando: pós-graduação e inglês já não são mais diferenciais

Raissa Ebrahim / JC ONLINE

O Brasil está terminando 2012, um ano que começou cheio de boas expectativas, com um crescimento quase inexpressivo do Produto Interno Bruto (PIB). O nosso “pibinho”, como está sendo apelidado, deve ter uma expansão pouco maior que 1%. O cenário atinge diretamente a geração nacional de empregos. Apesar de o momento ainda ser otimista, as empresas já esperam, para o início de 2013, um nível menor de contratação. O Nordeste, com destaque para Pernambuco, no entanto, vem traçando um caminho diferente. Por aqui, o PIB deve terminar o ano com um crescimento próximo de 2,5%. Algumas áreas profissionais têm conseguido alçar voos altos no mercado local, que conta com investimentos em Suape, nos polos automotivo e farmacoquímico e o forte consumo das famílias.

Entre os cargos mais demandados estão engenheiro civil, naval, eólica, mecânica e de produção, controller (controlador), gerente de produção, gerente de projeto (com destaque para área de óleo e gás), administrador de empresas, gerente de marketing e eventos, especialista em mobile marketing e analista de mídias sociais. Essas são algumas das profissões que devem continuar em alta nos próximos anos. Os salários são bem atrativos. Não ficam abaixo dos R$ 5 mil e podem ultrapassar R$ 20 mil, como é o caso de engenheiros de grandes empreendimentos.

Para Pedro Salles, manager da Michael Page em Pernambuco, o fosso entre Sudeste e Nordeste vem diminuindo. “Claro que temos uma dificuldade histórica, que marca a diferença entre as regiões. Mas, de dois anos para cá, começamos a ter uma menor dificuldade em encontrar pessoal mais bem preparado. E a tendência é essa. Quem se forma aqui não precisa mais ir para lá para alavancar a carreira. Pernambuco conta com grandes grupos, a exemplo da Ambev, Cornélio Brennand, Kraft, Fiat, para citar apenas alguns”, argumenta Salles.

A dificuldade local é mais de bagagem técnica, de vivência. “O Sudeste possui muitas empresas de capital aberto. Aqui ainda não incorporamos isso ao nosso DNA profissional. Mas o mercado está amadurecendo”, destaca. Entre as vantagens do nordestino, ele cita flexibilidade, a tomada de decisões mais intuitivas com menos elementos (sem que isso seja sinônimo de amadorismo, vale lembrar) e mais vontade de querer fazer.

Prova do crescimento da demanda local por novos talentos é a expansão da atuação da consultoria Hays, atualmente com quatro unidades no Brasil, que se prepara para abrir um escritório local. O Nordeste, principalmente Pernambuco e Bahia, já respondem por quase 30% das demandas da unidade do Rio de Janeiro.

“A região tem experimentado uma inserção muito forte no mercado de consumo. O Sudeste atualmente tem dificuldade em crescer e aí o Nordeste serve como uma grande oportunidade para muitas empresas. Grandes companhias que tinham estrutura mais profissionalizada no Sudeste e só uma área de apoio no Nordeste estão mudando completamente suas estratégias, levando profissionais de um lugar para outro, num fluxo migratório de retorno, e contratando e desenvolvendo novos talentos. É uma roda que gira: um gestor mais qualificado numa regional termina treinando todo o seu staff, e isso é ótimo para o desenvolvimento do mercado”, comenta Raphael Falcão, gerente da Hays no Rio de Janeiro.

Ele diz ainda que “São Paulo nunca vai deixar de ser o polo principal da indústria nacional. Quem define as estratégias macro das empresas continuará concentrado em São Paulo. Até mesmo no Rio é difícil encontrar esse pessoal. O que se vê é o aumento do volume de executivos regionais, capazes de pensar e desenvolver o mercado local”.

PERNAMBUCO -Pernambuco vive hoje um momento profissional predominantemente técnico, com a chegada de muitas empresas e o erguimento de vários empreendimentos. Mas, já partir de 2013, esse cenário vai começar a mudar. O mercado passará a ficar ávido por profissionais mais estratégicos, a exemplo de gente que atue em áreas financeira, comercial, de Tecnologia da Informação, de Recursos Humanos, de contabilidade, jurídica e de logística.

É uma prova da evolução do ambiente e da economia. É, sobretudo, um fator de adaptação do mercado, com o desenvolvimento de novas funções e a exigência de novos cérebros pensantes. “Essa é uma evolução natural, que deve começar nos próximos dois anos, quando muitos empreendimentos serão entregues, a exemplo da PetroquímicaSuape (2013) e da Refinaria Abreu e Lima (2014)”, comenta Pedro Salles, manager da Michael Page em Pernambuco. Segundo ele, essa será uma fase menos crítica, diferente do gap que vivenciamos atualmente para encontrar engenheiros, por exemplo.

Um exemplo da adaptação que já começa a ser vivenciada em Pernambuco é a multinacional Stericycle, especializada no gerenciamento de resíduos. A companhia ingressou no Brasil há cerca de três anos. Este ano, começou a se estruturar corporativamente, na busca de profissionais mais específicos. “Até ano passado, nossa sede corporativa ficava em São Paulo e estamos transferindo para Recife. Dentro dessa mudança, reorganizamos também todo o organograma da empresa, buscando, por exemplo, nova mão de obra para cargos de superintendência, de nível gerencial e analista”, conta Roberto Teixeira, diretor financeiro da Stericycle.

PERFIL – “Se eu fosse fazer raio x do Brasil hoje, diria que o mercado nordestino apresenta o maior números de oportunidades. É importante estar preparado para conseguir atender localmente essas demandas. É necessário mais escolas e mais universidades bem preparadas. A questão do idioma, por exemplo, tem que ser vista como prioridade para potencializar a mão de obra local”, defende Raphael Falcão, gerente da Hays no Rio de Janeiro.

Pedro Salles, manager da Michael Page em Pernambuco, reforça o perfil desse novo profissional. Segundo ele, o que as empresas buscam é uma boa formação acadêmica e pós-graduação. “Pós já deixou de ser diferencial. Assim como o inglês, tornou-se essencial”, alerta. A terceira língua mais exigida é o espanhol, inclusive pelo relacionamento com o Mercosul.

“Uma formação de primeira linha, ou seja, em instituições reconhecidas, bem conceituadas, faz todo a diferença. A educação é vista como um investimento”, lembra Salles.

Além disso, esse novo profissional precisa saber lidar com o mix de culturas que aporta por aqui, são empresas de diferentes nacionalidades. “É o cara camaleão, como costumamos brincar, que consegue se adaptar facilmente a diferentes ambientes e situações”, destaca.

Outros requisitos essenciais são proatividade, foco em resultados, eficiência. Salles explica que a tendência é que o mercado se torne mais frio, cada vez mais profissionalizado. “Não é mais um amigo da faculdade ou um parente que integra a equipe de trabalho das empresas. Inclusive as companhias tradicionalmente familiares estão começando a sentir essa diferença”.

Anúncios