Frederico Amâncio ressalta que receita de sucesso do complexo pernambucano é sua visão de futuro

Por Juliana Borba*

“Suape está no lugar certo, na hora certa e com a estrutura certa”. É com essa certeza que Frederico Amâncio, ex-presidente do Porto de Suape e atual secretário de planejamento do Estado de Pernambuco afirma que o complexo portuário Pernambuco vislumbra um futuro promissor de antes do momento positivo pelo qual passam a região Nordeste o País.

Em entrevista exclusiva ao Guia Marítimo, Amâncio explica que o diferencial de Suape é o fato de a gestão do porto ser focado em planejamentos e investimentos a médio e longo prazo, de forma a antecipar as necessidades do mercado e estar pronto quando a demanda se apresenta.
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Guia Marítimo: Recentemente, o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) aprovou o montante de R$ 920 milhões para a região portuária de Pernamuco. Qual o impacto dessa aprovação para o Porto de Suape?
Frederico Amâncio: Na realidade, esse montante foi aprovado apenas para Suape, não para a região. Nós temos 12 projetos que foram apresentados e defendidos, posteriormente avaliados pela diretoria do BNDES e aprovados. É um empréstimo específico, captado pelo governo do Estado de Pernambuco junto ao BNDES e voltado para obras de infraestrutura do Complexo de Suape.

GM: Esses 12 projetos compreendem que tipo de obras?
FA: A maior parte dos recursos é voltada para obras de dragagem, já que temos planos de expansão para o porto, tanto do porto comercial quanto para a área que chamamos de cluster naval, que é a área onde ficam nossos estaleiros – alguns deles já em construção. Além disso, também temos obras em algumas áreas viárias, como o projeto de transporte de massa para a região, levando uma linha de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) até o Complexo, conectando-o com a Linha Sul do metrô do Recife. Há também um outro projeto importante a ser contemplado, que é de tecnologia ambiental, que queremos implantar em Suape. As obras de dragagens são voltadas para a implantação de quatro novos cais e a implantação de dois novos estaleiros.

GM: Essas obras são hoje as de maior prioridade?
FA: Não. Mais do que prioridades, são os projetos apresentados ao BNDES e, dessa maneira, os recursos vêem fechados. No entanto, nós temos o nosso próprio plano de investimentos para o período 2011-2014 e que é da ordem de R$ 2,5 bilhões em investimentos em infraestrutura no Complexo de Suape. É um plano maior que a soma de R$ 920 milhões porque nós temos outros recursos de financiamento. No entanto, o montante aprovado pelo BNDES viabilizará obras bem importantes para o porto.

GM: Quais são os outros projetos que não serão contemplados por esses recursos do BNDES?
FA: Temos alguns obras com o próprio Governo Federal que fazem parte do nosso plano de investimento, como é o caso do aprofundamento do canal externo, o canal de acesso ao porto. Hoje ele tem 16 metros de profundidade e será aprofundado para 20 metros porque passará a receber navios de petróleo bruto, do tipo suezmax, o que pede uma profundidade maior. Também há um outro projeto, que deve receber parte desses investimentos, que é a implementação do terminal de graneis líquidos e de minério, projeto previsto, inclusive, pelo PAC 2 (Programa de Aceleração do Crescimento). Também temos a dragagem do cais para 20 metros de profundidade, para receber navios do tipo capesize, que pedem profundidade de 19 metros. Só a obra de aprofundamento do canal externo, já em curso, está orçada em R$ 280 milhões. Também temos obras viárias no nosso planejamento, como a Via Expressa, que é uma via duplicada, expressa, totalmente nova, construída para o acesso ao porto, além do acesso rodoviário, que chega aos estaleiros. Também já estamos finalizando o processo de duplicação das vias internas. Com isso, ficaremos com 44 quilômetros de rodovias duplicadas somente dentro do Complexo de Suape, incluindo porto e área industrial. Enfim, temos muitas obras em vista.

GM: Todo esse número de obras e investimentos no porto nesse momento demonstram o esforço do complexo para aproveitar o momento econômico positivo do País?
FA: O grande diferencial do Porto de Suape, durante toda sua história, é que ele é o único porto público do Brasil efetivamente planejado. Por conta disso, nós sempre tivemos, durante todo seu processo de desenvolvimento, e ainda temos, a preocupação de termos um olhar para as necessidades do complexo para os próximos anos. Enquanto a maior parte dos portos do Brasil está fazendo obras para resolver problemas do passado, nós fazemos obras pensando no futuro, para os próximos 10, 15, 20 anos.

GM: Todas essas obras já visam também a abertura do Canal do Panamá, que será realizada em breve?
FA: Também. Nós teremos navios de grande porte vindos do Panamá e somos o primeiro porto grande e com infraestrutura capaz de receber esses navios de grande porte nas rotas que compreendem o canal. Esse conjunto de obras tem objetivos específicos e são focados no nosso crescimento. Suape tem uma excelente localização estratégica, devido à sua posição geográfica, e, além disso, é um porto abrigado, que trabalha com grandes profundidades e é considerado o melhor porto público do Brasil. Sabemos que o potencial é grande e que ele pode ser o segundo hub port do Pais, depois de Santos, não só em movimentação, mas para distribuição de cargas. Alguns portos do mundo têm como especialidade ser um hub – é o caso de Cingapura e Rotterdam. Entendemos que nossa proximidade com os Estados Unidos, África, Europa e agora com a abertura do Canal do Panamá, temos todo o potencial para sermos o segundo em movimentação de contêineres do Brasil, não só com foco em Pernambuco e na região Nordeste, mas focado na distribuição para todo o País, já que navios grandes podem chegar a Suape e distribuir a carga por transbordo para navios de menor porte para os demais portos brasileiros. Já fazemos isso hoje com alguns portos do Nordeste.

GM: Como essas mudanças devem impactar os números do porto?
FA: Nós devemos terminar este ano movimentando 12 milhões de toneladas de cargas e devemos registrar um salto para 30 milhões de toneladas até o final de 2014. Depois disso, iremos para um patamar de 50 milhões de toneladas. Por que? Por causa dos empreenimentos grandiosos que estão chegando ao Complexo, como a Refinaria Abreu e Lima que, quando estiver pronta, vai movimentar, sozinha, 14 milhões de toneladas. Ou seja, ela sozinha é um porto. A Petroquímica Suape, que já está com algumas unidades sendo testadas, começa a funcionar no final deste ano e movimentará, sozinha, 2 milhões de toneladas. Além disso, temos alguns terminais sendo implantados, como o terminal de minério e o terminal de grãos e fertilizantes, associados à chegada da ferrovia Transnordetina a Suape, trazendo uma carga nova, que o complexo não tem hoje. Tudo isso vai gerar um novo volume de cargas e, consequentemente, novos investimentos.

GM: Ou seja, a demanda por uma infraestrutura cada vez melhor é crescente, certo?
FA: Sim, por isso estamos investindo também num projeto importante que é o segundo terminal de contêineres. Associado a essa visão do futuro de que Suape tem todos os requisitos. As empresas do setor, todas elas, já demonstraram interesse nesse segundo terminal e há também interesse do governo do Estado e da própria empresa Suape.

GM: Com todas essas obras sendo realizadas ou já em planejamento, haverá gargalos em Suape?
FA: Uma falha que os outros portos do Brasil cometeram ao longo do tempo é uma falha que a gente tenta não cometer em Suape: achar que porto se faz só com dragagem e construção de cais. É preciso ter dragagem, construção de cais, retroárea para operações portuária, retroárea para operações logísticas, entorno com volume grande para operações logísticas e infraestrutura viária. Se esse conjunto não estiver bem, o complexo logístico não funciona. Praticamente todos os portos têm as suas deficiências, essa é uma deficiência da nossa estrutura portuária no Brasil, porque não se pensa nas necessidades a longo prazo e não se pensa em todo esse conjunto de necessidades da infraestrutura. Nós tentamos fazer diferente, fazendo investimentos e olhando tudo isso.

GM: Diante desse cenário qual o impacto desse grande desenvolvimento de Suape para Pernambuco e para a indústria marítima brasileira?
FA: Suape já é o principal porto da região Norte-Nordeste, não só em volumes, mas também em importância estratégica, por causa da movimentação de contêineres. Para se ter uma ideia de como o porto cresceu, em 2009 fechamos o ano movimentando 242 mil Teus (unidade de medida equivalente a um contêiner de 20 pés), e já éramos o maior porto da região. Em 2011, o número já era de 425 mil Teus, então passamos a ter um volume de movimentação similar ao Porto do Rio de Janeiro. Isso aconteceu porque Suape é a principal porta para toda a região, especialmente de cargas provenientes do exterior. Nós temos um perfil diferente de Santos e Paranaguá, grandes portos importadores. Nós somos um grande porto de entrada. Então, paralelamente a isso, o Nordeste é hoje a região que mais cresce no Brasil, em todos os aspectos. O porto, claro, se beneficia disso e se beneficia do crescimento do estado de Pernambuco, considerado um dos mais dinâmicos do País. Muita carga que passa por aqui tem como destino também a região Norte, que também tem visto bom crescimento. Por essa razão, Suape é hoje estratégico para toda a região e temos trabalhado a movimentação de contêineres para ele seja estratégico também para todo o País.

GM: Ou seja, são dois campos que crescem independentes, mas que são correlatos.
FA: Sim. Isso só foi possível porque o estado de Pernambuco teve essa visão estratégica de aproveitar esse projeto, ter essa estrutura de Suape. Nesse momento, em relação ao Norte e Nordeste, é como se estivéssemos no local certo, na hora certa, com a infraestrutura certa. Todo mundo convergiu para Suape.

GM: Santos ainda é o maior porto do País. Suape se inspira nele de alguma maneira?
FA: Não. A gente não olha para Santos, a gente olha para os grandes portos do mundo. Santos é o maior porto do Brasil e sempre vai ser. O fato de ele estar em São Paulo contribuirá para que ele jamais seja tirado dessa posição. Mas Santos tem as suas falhas, não podemos nos espelhar nele como um modelo. Nos espelhamos em portos como Rotterdam.

GUIA MARÍTIMO

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