Com posição estratégica, desafio para porto pernambucano é o escoamento.
Suape quer mudar perfil e virar maior concentrador de cargas do país.
Katherine Coutinho e Luna Markman
Do G1 PE
No 1º semestre deste ano, Suape movimentou 5,3 milhões de toneladas de cargas (Foto: Divulgação)
O plano de investimento para o setor portuário anunciado nesta quinta-feira (6) pelo governo federal foi bem recebido pelo presidente de Suape, Márcio Stefanni, que acumula a Secretaria Estadual Desenvolvimento Econômico de Pernambuco. “O plano pretende aumentar investimentos, que podemos usar na dragagem do nosso porto. Se ele ficar mais profundo do que é, receberá navios maiores, mais pesados, com mais cargas”, explicou, em entrevista ao G1. O pacote prevê o investimento de R$ 54 bilhões no setor portuário brasileiro até 2017.
A exportação não é o forte do Complexo Industrial Portuário de Suape, localizado no Cabo de Santo Agostinho, a 40 km do Recife. Minério e soja, produtos mais vendidos pelo Brasil para o exterior, não passam por ele. A ambição do terminal é mudar esse cenário e tornar-se o maior hub port do país, isto é, o porto que mais concentra cargas, de acordo com Stefanni. A posição de Suape é estratégia, próxima do leste americano e oeste da Europa e África. O desafio é o escoamento dos produtos, que deve ser resolvido com a conclusão da ferrovia Transnordestina.
Para receber mais cargas, é preciso ter condições de distribuí-las. Para o secretário, a solução está na ferrovia Transnordestina, cuja conclusão está prevista para dezembro de 2014, segundo o mais recente balanço do Programa de Aceleração do Crescimento. A obra prevê a construção de 1.728 km de ferrovias, interligando os estados do Piauí e Ceará e Pernambuco aos portos de Pecém, no Ceará, e Suape.
“Suape tem como desejo ser um dos maiores hub port do País. Está perto da África, da Europa, pode receber produtos da China. Podemos virar o grande centro de distribuição do país. A Transnordestina vai facilitar o escoamento desses produtos que chegarem e também vai estimular a exportação da produção de soja e minério do Piauí, de sub-produtos da Refinaria Abreu e Lima e produtos da Petroquímica, que estão em construção aqui no complexo”, falou Stefanni.
O impacto do pacote nos portos de Suape e do Recife ainda será avaliado pelo presidente, que estava em Brasília desde a segunda-feira (4). Ele e uma comitiva do governo estadual tiveram encontros com equipes técnicas do governo federal sobre o programa. “Nós fomos mostrar os nossos pleitos, como as dragagens que precisam ser feitas e melhorias no acesso a Suape. Como os anúncios hoje foram feitos de forma global, ainda não temos como avaliar o plano e precisar seus efeitos. Não houve a distribuição de documento formal. Vamos estudá-lo”, ponderou.
saiba mais
O secretário ainda afirmou que não há a indicação de construção de um novo porto em Pernambuco. “Ainda não dá para saber se o estado ganhou, mas nada foi dito neste sentido. Nós já temos dois, estamos bem atendidos. Existe apenas um estudo para um Porto Norte, na Ilha de Itapessoca [em Goiana], pensado na forma de PPP [Parceria Público-Privada]”, comentou.
Suape
O Complexo Industrial Portuário de Suape surgiu em 1978, por meio de uma lei estadual, entrando em operação 15 anos depois. Com uma área de 13,5 mil hectares, o projeto baseou-se na integração de porto com a indústria. Hoje é um dos principais terminais portuários do país, com 100 empresas de diversos segmentos, como logística, indústria naval, alimentos, química, têxtil, energia eólica, materiais de construção, granéis líquidos e gases. Em 2011, a receita operacional foi de quase R$ 70 milhões.
Atualmente, 50 empresas estão em implantação, gerando mais de 25 mil empregos diretos e mais de 50 mil na área de construção civil. Administrado pelo governo estadual, por meio da empresa Suape – Complexo Industrial Portuário, possui um porto interno e outro externo. A operação de navios pode ocorrer nos 365 dias do ano, sem restrições de marés ou condições climáticas.
Fernando Pessoa, presidente da Assesuape, associação representativa das empresas instaladas no Complexo de Suape, enumerou as principais vantagens que os empresários enxergam no local.
“Nós temos um porto com boa atividade e posição geográfica, já que torna viável o leste americano, a Europa, a África e a navegação de cabotagem, além dos acessos às estradas. Também conta com fábricas próximas que complementam a cadeia produtiva das que estão instaladas no complexo, que tem, inclusive, uma diversidade muito grande de empresas, de navios, automóveis, petróleo, cimento”, disse. Para Pessoa, ainda há um gargalo. “O maior problema é a falta de mão-de-obra qualificada para atender a demanda”, falou.
Raio-x
O porto interno de Suape tem 15,5 metros de profundidade, um canal interno de navegação com 1.430 metros de extensão e 450 metros de largura, além de 1.600 metros de cais, com cinco berços de atracação. Já o porto externo tem um molhe de pedras de proteção, com 3.050 metros de extensão, e abriga quatro píeres de granéis líquidos, que recebem combustíveis e gases, uma tancagem flutuante de GLP e um cais de múltiplos usos.
No primeiro semestre de 2012, o Porto de Suape movimentou 5.376.926 toneladas de carga e 195.043 TEUs, unidade de medida utilizada para transporte de contêineres. Em 2011, o movimento foi de 11.253.833 toneladas de carga e a movimentação de contêineres foi de 434.905 TEUs.
De acordo com a administração do complexo, foram R$ 450 milhões em investimentos públicos em 2010, e entre 2011 e 2014, a estimativa é de que sejam investidos R$ 3 bilhões. Com a chegada de novas empresas, mais de 600 milhões de dólares foram investidos na construção de novos píers, rodovias e dragagens, além de mais um bilhão de dólares até 2013 para a construção de quatro novos terminais.
Além do Estaleiro Atlântico Sul (EAS), outros dois estão sendo implantados em Suape: Promar e CMO (Construção e Montagem de Offshore S/A). Este último deve começar a ser construído no início de 2013. O EAS e o Promar fabricam navios de grande e pequeno porte, respectivamente. Já o CMO vai se especializar na construção de plataformas para indústria de petróleo.
Em 27 de maio deste ano, a Petrobras Transporte S/A (Transpetro) chegou a suspender a execução dos contratos de compra e venda de 16 dos 22 navios petroleiros encomendados ao Estaleiro Atlântico Sul que integram o Programa de Modernização e Expansão da Frota da Companhia (Promef). A medida foi anunciada dois dias depois de a empresa entregar, com quase dois anos de atraso, o petroleiro João Cândido, o primeiro navio construído para o programa da Transpetro. Em novembro, a Transpetro retomou parceria para que o EAS construa 4 dos 16 navios encomendados pela estatal.
A Refinaria Abreu e Lima e a Petroquímica Suape, projetos da Petrobras no Complexo, estão ainda em construção e somam, juntas, 51 mil empregos na construção civil. No último dia 30 de outubro, 54 mil operários que trabalham nessas obras entraram em greve por aumento salarial.
O acordo entre Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Construção de Estradas, Pavimentação e Obras de Terraplanagem no Estado de Pernambuco (Sintepav-PE) e o Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon) só ocorreu no dia 22 de novembro. O encontro foi na Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) em Pernambuco, no Recife.
“A equiparação salarial ficou pendente em nossa convenção coletiva de agosto e vimos que os patrões estavam empurrando com a barriga, então decidimos paralisar tudo. Com o acordo, durante o ano todo, tivemos ganhos de 16,92% para servente a até 71% para encarregado de solda. Hoje, nós temos o melhor salário em construção pesada e montagem industrial em obras da Petrobrás do Nordeste, na frente do [Terminal Portuário de] Pecém, no Ceará, e do [Polo Industrial de] Camaçari, na Bahia. Também ficamos com o segundo maior [salário] do Brasil, perdendo apenas para São Paulo”, explicou o presidente do Sintepav, Aldo Amaral.

