/ Entrevista concedida ao Jornal do Commercio /

O Nordeste precisa fazer seus polos industriais virarem, de fato, polos de crescimento – além do sentido econômico, para evitar erros históricos do Brasil. A preocupação em evitar o crescimento que isola é um dos temas desta entrevista com o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, concedida nesta sexta-feira (28) ao repórter Giovanni Sandes. Na conversa, Luciano também fala sobre a revisão do crescimento brasileiro de 2,5% para 1,6% e da inflação de 4,7% para 5,2% e sobre atrasos em projetos da indústria automotiva, como a Fiat em Goiana, onde a construção da fábrica era esperada para abril passado e, no último dia 17, apenas a construção da sede administrativa provisória teve início.

JORNAL DO COMMERCIO – O crescimento foi revisado para baixo, a inflação para cima. O Brasil entrou e ficou na crise?
LUCIANO COUTINHO –
A crise já está sendo superada. A desaceleração da economia que ocorreu em 2011 e no primeiro semestre de 2012 é uma página virada. Esse terceiro trimestre que está se encerrando esta semana, ao que tudo indica, revelará um crescimento anualizado próximo de 4%. Todos os nossos indicadores – o sistema Finame, a consulta por crédito – revelam uma recuperação das decisões de investimentos. E outros dados, de outras instituições, revelam uma retomada da confiança do setor privado. Os esforços do governo, através de vários institutos, está produzindo resultados. Certamente, neste segundo semestre e em 2013, a economia brasileira crescerá entre 4% e 4,5%.
JC – O PSI (Programa de Sustentação de Investimentos, federal) cumpriu bem o seu papel? Onde o programa precisa melhorar?

LUCIANO COUTINHO – O PSI tem sido melhorado sucessivamente. No início do ano, em abril, e agora novamente em agosto, o Conselho Monetário Nacional reduziu as taxas para bens de capital em geral, para caminhões e ônibus, com taxas excepcionalmente baixas, de 2,5%. Esse estímulo adicional do PSI já produz resultado. As vendas no mês de setembro já mostram aceleração. Nós esperamos que no último trimestre ocorra uma ascensão firme da comercialização de máquinas e equipamentos, caminhões e ônibus, ajudando a retomada dos investimentos na economia brasileira de volta ao patamar superior a 19%.
JC – Na área automotiva, a JAC Motors, na Bahia, suspendeu seu projeto e a Fiat, em Pernambuco, tem um descompasso em relação ao cronograma original. Isso tem relação com a crise ou as indústrias esperam a definição do novo regime automotivo?
LUCIANO COUTINHO –
Acredito que um pouco das duas coisas. Certamente, a desaceleração internacional rebateu um pouco nas expectativas internas. Isso afetou especialmente, a partir do fim do ano passado, início de 2012, os planos empresariais. Mas a firme reação de governo, as medidas adotadas, mostraram de maneira cabal o compromisso da presidenta Dilma com a sustentação da economia. Essa firmeza já se refletiu em uma mudança de expectativa e na retomada no plano de investimentos. Foi um interregno de cautela que o setor privado já passou e eu tenho certeza de que aceleraremos os investimentos já neste segundo semestre e num crescendo em 2013, 2014, 2015, em direção a uma taxa agregada de investimento que chegue perto de 23%.
JC – Essa preocupação com a indústria de grande escala, naval e automotiva, é nova para o nordeste. Os novos setores tendem a se ampliar? Como a região pode se beneficiar melhor dessa nova economia?
LUCIANO COUTINHO –
O Nordeste e Pernambuco, em especial, passam por um período de intensa revolução industrial. Nos últimos 5 anos houve uma série de iniciativas, uma decisão política ainda no governo do presidente Lula, que localizou no Nordeste empreendimentos estruturantes. Me refiro aos polos de indústria naval, estaleiro, a decisões de descentralização da indústria química e petroquímica, siderúrgica. Me refiro à decisão de construção de refinarias novas na região, ao ciclo de estímulo compartilhado não só pelo BNDES, mas do BNB também, à produção de equipamentos de energia eólica. Me refiro a um conjunto de iniciativas na área de saúde, na produção de fármacos e equipamentos. Me refiro a uma descentralização na área de construção, cerâmicas, PVC. Também lembro que as indústrias de bens de consumo, alimentos processados, bebidas, fizeram forte investimento em unidades novas na região. De maneira que esses investimentos se acumularam em novos polos muito expressivos, entre os quais eu ressalto Suape. Esse conjunto vai amadurecer nos próximos 3, 4 anos. Teremos uma mudança radical pela qual os Estados nordestinos, até então à parte de uma maior presença na indústria da transformação, passarão a ter peso relevante no sistema industrial brasileiro. Qual é o desafio para o futuro? Capturar todas as oportunidades que esses blocos de investimento carregam consigo.
JC – Que tipo de oportunidades?
LUCIANO COUTINHO –
Adensamento da cadeia de fornecedores é o primeiro grande desafio, porque não podemos nos conformar em ter apenas indústrias montadoras. Precisamos trazer toda a cadeia de fornecedores para cá, apresentando algum ganho de competitividade. Já se passou a página da história de desenvolvimento protegido por grandes barreiras, escalas de ineficiência… Precisamos ter indústrias de setores competitivos, capazes de exportar e resistir à furiosa concorrência internacional que continuará abarcando os próximos períodos. Temos um grande desafio. Esse novo ciclo de adensamento de atividades vai requerer novos entendimentos, trabalhadores altamente qualificados, processos mais eficientes, próximos ao estado da arte, alto padrão tecnológico. Precisamos instituir dentro desses processos uma prioridade forte para inovação tecnológica, o desenvolvimento de serviços avançados de engenharia que acompanhem a manufatura moderna. Essa indústria é intensiva em tecnologia da informação, em automação, design, desenvolvimento de produto. Isso requer engenharia sofisticada, centros de pesquisa e desenvolvimento, uma indústria de serviços pré e pós-manufatura. O nordeste tem todas as condições de capturar todos esses empregos e essas oportunidades.
JC – Como na infraestrutura?
LUCIANO COUTINHO –
Também. O que viabilizou, por exemplo, pecém e suape, foram duas grandes infraestruturas portuárias. Mas isso não pode vir sem a retaguarda de infraestrutura rodoviária e ferroviária de grande escala que demandará muitos investimentos nos próximos anos. Demandará também o suporte de outras infraestrutura: energia elétrica, abastecimento de água, de infraestrutura de alta qualidade de telecomunicações, porque é preciso banda larga altamente eficiente para suportar todos esses projetos. Temos uma infraestrutura interessante no aeroporto do Rio Grande do Norte. A infraestrutura portuária, aeroportuária e ferroviária precisará se expandir nos próximos 10 anos para tornar eficiente essa nova matriz industrial que está sendo construída.
JC – Já existe demanda de financiamento de projetos nessas área?
LUCIANO COUTINHO –
Nós temos a demanda crescendo e um esforço de planejamento de longo prazo que precisa ser aprofundado. Os projetos precisam ser desenvolvidos. Estamos recém-recuperando nossa capacidade de planejar a longo prazo. Infelizmente, as grandes crises inflacionárias, a cambial, tornaram o Brasil uma economia que administratava crises a cada 2, 3 anos e não tinha um horizonte mínimo de previsibilidade e planejamento. Felizmente, recuperamos a capacidade de pensar e planejar. Precisamos olhar 20, 30 anos à frente, nos preparar para um novo ciclo de grande envergadura de desenvolvimento, de forma que esse impulso inicial que foi dado, a partir de decisões políticas, tenha não apenas continuidade, mas consistência para, de maneira definitiva, superar o atraso histórico da região nordestina.
JC – As concessões são uma forma de acelerar a infraestrutura?
LUCIANO COUTINHO –
São. Mas no caso do nordeste, dada a menor densidade atual, alguns dos projetos não têm a mesma sustentabilidade do que em áreas já intensamente preenchidas por atividade econômica e que têm grandes gargalos de infraestrutura. É fácil um projeto de infraestrutura em uma região que tem muitos gargalos porque ele tem receita de pedágio, receita de serviços. No caso do nordeste, muitos dos projetos são pioneiros e estruturantes: a transnordestina, a transposição, os portos de suape e de pecém. Não fosse o papel do setor público realizando investimentos com base nas suas receitas orçamentárias, não teria sido possível. No Nordeste, a necessidade do investimento público persistirá ainda durante um bom tempo. O que não quer dizer que não devamos explorar ao máximo o potencial das concessões e das parcerias público-privadas (PPPs). O governo ampliou o limite de uso das receitas dos Estados para PPPs, de 3% para 5%. Isso abriu espaço para uma nova geração de PPPs. É um desafio. Queremos fortalecer o processo de garantias para PPPs de tal maneira a torná-lo mais rápido, mais eficaz, como alavanca de investimentos de infraestrutura.
JC – Esses temas são federais ou dos Estados. Mas o próprio BNDES já busca alternativas para os municípios. Eles estão preparados para esses desafios?
LUCIANO COUTINHO –
Temos uma grande preocupação com o entorno de grandes projetos. A grande concentração de investimentos em Suape, nos municípios, causa muita preocupação, muita tensão, e necessita de uma resposta organizada do setor público municipal. Com o governo de pernambuco, o BNDES uniu forças para apoiar o desenvolvimento de projetos desde o ordenamento territorial à elaboração de projetos específicos de mobilidade, infraestrutura, preservação ambiental, treinamento, qualificação – é preciso tratar de forma muito proativa os municípios afetados, de maneira a gerar externalidades positivas e não, como a história brasileira tristemente registra, regiões com um grande desenvolvimento e, no seu entorno, uma degradação social e ambiental que em nada contribui para o desenvolvimento daquele polo. Então, é preciso zelar. Um polo econômico demanda qualidade de vida, pessoas qualificadas para atrair empresas qualificadas, demanda uma convivência com as comunidades locais, de atividades que melhorem a renda e o emprego locais. E também preocupação com as empresas locais, o microcrédito local, tarefas essencialmente dos municípios, que precisam ser apoiados para cumprir essa tarefa. Estamos trabalhando muito para depois ter um caso exemplar em Suape. Sabemos das dificuldades, de concentrar em um território pequeno 100 mil trabalhadores para fazer grandes obras simultaneamente produz uma tensão considerável sobre o território. Estamos aprendendo muito nesse processo.
JC – E como estão os pequenos empreendedores?
LUCIANO COUTINHO –
Nós temos um orgulho muito grande do nosso Cartão BNDES aqui na região. Estamos chegando perto de 100 mil cartões emitidos na região, um desembolso que vai chegar perto de R$ 1,7 bilhão este ano, para a pequena empresa. É um crédito médio de R$ 14 mil, abrange muitas pequenas empresas na região. Me dá muito orgulho, é uma ferramenta muito importante. Nós estamos agora aguardando que o Banco do Nordeste (BNB) entre pesado, distribuindo os cartões do BNDES, além dos bancos privados. E temos uma parceria muito estreita com o BNB para o microcrédito. O BNDES naturalmente tem uma dificuldade muito grande porque não tem rede de varejo. Depende de ter parceiros. Temos buscado Oscips (Organizações Sociais Civis de Interesse Público) e Organizações Não Governamentais (ONGs). Mas contamos muito com a experiência do Banco do Nordeste.
JC – Quais serão as maiores demandas nos próximos anos, além dos setores pesados, de indústria e infraestrutura? Tecnologia da Informação? Inovação?
LUCIANO COUTINHO –
Estamos multiplicando nossas iniciativas de apoio a empresas inovadoras. Temos aqui o belíssimo exemplo do polo de softwares do Recife, o Porto Digital, e outras iniciativas. Queremos multiplicar o nosso apoio. Temos multiplicado os fundos de capital-semente. Fizemos uma primeira rodada do Criatec, um fundo muito bem sucedido, vamos para a segunda rodada e depois para o Criatec 3. Não faltarão recursos para empresas inovadoras em todas as áreas intensivas em conhecimento, começando por tecnologia da informação. Esse apoio é essencial à multiplicação dessas pequenas empresas, que agregam inteligência e capacitação dos serviços tecnológicos e inovação. Temos uma percepção de que, além de tecnologia da informação, teremos biotecnologia, nanotecnologia, biofármacos, engenharia sofisticada, dedicada a óleo e gás, engenharia automotiva. São grandes vocações que um polo como a Região Metropolitana do Recife pode desenvolver de forma exitosa. São empresas necessárias para o futuro. Essa oportunidade não pode ser despediçada. Além das empresas criativas, das artes, das humanidades, em que temos tanta tradição em Pernambuco. O BNDES tem apoiado essas iniciativas.

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