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Renata Moura – Editora de Economia
[ Entrevista / Idalberto Chiavenato / Consultor e Palestrante ]

O ambiente de negócios no Brasil vem passando por mudanças cada vez mais profundas e, em meio a esse turbilhão, inovar é a única maneira de sobrevivência. A tese é defendida pelo consultor Idalberto Chiavenato, 76, apontado como uma das principais autoridades do país nas áreas de administração de empresas e recursos humanos e autor de 30 best sellers publicados no Brasil e de 17 obras em língua espanhola. De malas prontas para ministrar palestra em Natal, na próxima-quinta-feira (16), ele falou à TRIBUNA DO NORTE sobre os desafios da inovação, da gestão empresarial e da retenção de talentos, em um mercado cada vez mais concorrido. Confira os principais trechos da entrevista:

Dados do Sebrae mostram que a longevidade dos negócios está aumentando. Mas em estados como o Rio Grande do Norte ainda há mais dificuldade para sobreviver. O que limita e o que favorece o sucesso de um empreendimento?
A sobrevivência de um negócio depende fortemente da sustentabilidade econômico-financeira do empreendimento. Isso requer a geração de valor econômico, o retorno do investimento e a lucratividade necessária para a sustentação do negócio no longo prazo. Muitos empreendimentos começam com um capital de risco insuficiente para a demanda, enfrentam grandes dificuldades financeiras, sofrem com juros elevados, uma profusão incrível de impostos altíssimos, uma burocracia jurássica, um contexto econômico pouco favorável e logo desaparecem do mapa com incrível rapidez e frequência. Os riscos são enormes, pois falta o devido apoio e suporte governamental, infraestrutura adequada, a legislação é arcaica e confusa, não temos educação de excelência, saúde, transporte ou segurança mínima. Isso todo mundo já sabe. Como o entorno não ajuda, a mortalidade infantil de nossas empresas vai para as alturas, muito além do que se poderia imaginar.

Qual seria o desafio, nesse contexto?
Cabe a todo empreendedor que pretende iniciar um novo negócio o desafio de saber preparar-se antecipadamente para lutar sozinho e sem nenhum apoio externo, definir exatamente o seu plano de negócio, liderar com garra e criar uma equipe de colaboradores, oferecer ao mercado algo realmente notável e distintivo, definir uma estratégia de sucesso e competir com persistência e denodo. Contudo, além de definir exatamente qual será o seu negócio e planejar os aspectos financeiros existem outros aspectos fundamentalmente importantes, como criar e desenvolver uma equipe capaz de ajudá-lo a ter sucesso.

Fala-se muito sobre a necessidade de inovação. Mas pesquisas mostram que o índice de empresas inovadoras é baixíssimo. Por que isso?
Na verdade, não são as empresas que criam e inovam. São sim as pessoas dentro delas, mas com a ajuda, apoio e incentivo das empresas. Se estas não oferecem um contexto adequado, uma cultura que privilegie a criatividade e o fazer melhor e mais rápido, suporte gerencial, apoio, reconhecimento e incentivo pelo bom trabalho, a inovação simplesmente não acontece, pois não encontra um terreno fértil para isso. É preciso fortalecer e incentivar o conhecimento, imaginação e a criatividade das pessoas para que tudo isso em conjunto resulte em inovação, desde que também a empresa saiba canalizar, reforçar e recompensar os esforços das pessoas e partir definitivamente para coisas novas. Em um mundo de negócios em que tudo muda rápida e intempestivamente a inovação é a única saída para a competitividade. Assim, a inovação deve ser tratada como um ativo estratégico para a sobrevivência do negócio. Dizem que o brasileiro é muito criativo, tem um jeito especial para tudo, mas acontece que nossas empresas ainda não estão sabendo utilizar todo esse enorme potencial de inovação à sua disposição e em tempo integral.

Qual seria o seu conceito de inovação?
No fundo, a inovação é um verdadeiro estado de espírito. Não depende de inteligência e nem de educação, embora inteligência e educação ajudem muito. Ela requer alguma forma de introspecção criativa que dorme dentro das pessoas – aquilo que, há mais de 2.400 anos atrás, o filósofo grego Sócrates chamava de maiêutica – mas com forte estimulação externa. A inovação significa fazer as coisas de maneira completamente diferente daquilo que se faz e pode acontecer na forma de novos e inovadores produtos, serviços maravilhosos, processos cada vez mais eficientes e eficazes, novas formas de fazer negócios, novos sistemas, novas tecnologias, novos mercados, enfim dinheiro novo que ingressa a mais na empresa. Inovação não é apenas melhorar e desenvolver aquilo que se faz. É muito mais do que isso. É inventar coisas nunca antes sonhadas e que vão impulsionar a competitividade da empresa em um mundo de negócios extremamente mutável, dinâmico e competitivo.

É difícil fazer isso?
Sim, mas perfeitamente possível. Muitas empresas e muitos países estão nessa corrida sem fim.

Há uma receita para inovar?
Claro! Há uma porção delas, dependendo do gosto de cada um. Algumas se centram nas características da empresa e de sua cultura corporativa, outras na tecnologia de apoio e suporte. Mas nenhuma dessas receitas se afasta muito das pessoas. Afinal, inovar é um ato criativo que depende da imaginação da pessoa e não da tecnologia. Esta até pode ajudar, mas a atividade cerebral de pensar fora da caixa vem em primeiro lugar. O problema está em criar uma poderosa e forte cultura de inovação dentro da empresa através da qual as pessoas percebem que imaginar, criar e inovar dá certo para elas e para a empresa e se engajam nesse processo para melhorar incessantemente o seu trabalho e contribuir para o sucesso do negócio através de maneiras que só gente com ideias pode fazer acontecer.

A inovação em gestão depende de que?
A inovação não depende de uma única e isolada providência, mas de uma porção de fatores que precisam ser integrados e conjugados para funcionar como os alicerces ou plataformas mentais. Em primeiro lugar, todas as pessoas de uma empresa têm ideias a respeito de como melhorar o seu próprio trabalho e fazê-lo de outras maneiras mais eficientes e eficazes. É preciso que alguém possa explicar-lhes, incentivá-las e ajudá-las a imaginar, tentar, ousar, inventar, criar e inovar, fazer mudanças e transformações internas capazes de reduzir custos, tempos, recursos, esforços, caminhos e etapas, ao mesmo tempo em que se acelera o serviço ao cliente, torna mais agradável o contato com o consumidor e facilita a vida de todo o mundo. Em segundo lugar, reconhecer e recompensar de maneira pública e solene as contribuições que trazem novos lucros ao negócio. Em terceiro lugar, é preciso reconhecer que no mundo atual é a inovação que está ganhando os maiores investimentos nas empresas mais bem sucedidas. As mudanças no mundo dos negócios têm sido cada vez mais rápidas e profundas e a única maneira de garantir a sobrevivência é inovar. Mas não apenas inovar de vez em quando, mas inovar contínua e constantemente.

Como estimular a participação dos colaboradores nesse processo?
A participação dos colaboradores é indispensável e fundamental. Pessoas engajadas que trabalham em conjunto e em equipes estão mais predispostas ao intercâmbio de ideias e de experiências capazes de proporcionar uma contribuição incrível ao sucesso do negócio. Para isso, é necessário que as lideranças empresariais expliquem a cada colaborador o que se espera dele em termos de desempenho no seu trabalho e também definir metas e objetivos, ajudá-lo a alcançá-los através de forte liderança, treinamento e orientação, incentivá-lo e recompensá-lo na medida em que ultrapassa as expectativas e transformar tudo isso em uma lição de vida para os demais colaboradores. Os colaboradores precisam de um modelo mental que somente a experiência e o aprendizado podem ajudar a construir.

A retenção de talentos está diretamente ligada ao salário deles ou vai além disso?
Todas as empresas pagam um determinado salário para uma determinada atividade em função daquilo que o mercado paga. Realmente o salário – quando maior do que o mercado – tem forte componente motivacional e quase sempre prende as pessoas no emprego. Mas, o salário tem suas flutuações no mercado. E as pesquisas têm demonstrado que o salário não é o único aspecto que os talentos levam em conta para permanecer e/ou engajar em uma empresa. Outros aspectos como ambiente de trabalho, atividade agradável e interessante, camaradagem com colegas, horário flexível para atender às necessidades pessoais, benefícios, incentivos e recompensas, liderança, investimento da empresa em treinamento e desenvolvimento, esperança de crescimento profissional, tudo isso está sendo levado em conta para permanecer e/ou engajar na organização. Contudo, são poucas as empresas que oferecem um ambiente de trabalho salutar, agradável, gostoso que conquista as pessoas e as tornam verdadeiras parceiras do negócio através de lideranças incentivadoras que proporcionam empowerment e conseguem que os talentos vistam a camisa da empresa. Talento está sendo hoje uma mercadoria rara, escassa e disputada em um mercado de trabalho cada vez mais amplo e competitivo e o desafio está em atraí-lo, conquistá-lo, retê-lo, desenvolvê-lo e transformá-lo em um forte componente do sucesso do negócio. O mundo está mudando rapidamente e o talento está constituindo uma das principais vantagens competitivas das empresas modernas. Ter talentos não é um custo, mas um precioso investimento. O desafio está em saber utilizá-los e saber obter deles o retorno desse investimento. Acho que o talento é como uma semente cara e delicada. Quando é plantada em terreno árido ela fenece, mas quando recebe um terreno fértil ela prospera e dá frutos incríveis.

Os empresários repetem como um mantra que falta mão de obra qualificada no país. Falta mesmo?
Acho melhor falarmos em colaboradores ou talentos. A velha denominação de mão-de-obra que vem desde a Revolução Industrial me parece antiquada, obsoletae até vexatória, pois diminuem as pessoas a coisas. As empresas não empregam apenas a mão, o braço ou a força muscular das pessoas. Hoje, a maioria das empresas emprega cérebros, inteligências, habilidades, conhecimentos, competências que as pessoas constroem em suas vidas particulares. O conhecimento é hoje a moeda mais valiosa do mercado e o investimento mais rentável está focado nele para melhorar incrivelmente a força de trabalho de uma empresa e com isso aumentar a contribuição das pessoas para o sucesso dos negócios. É incrível como as empresas estão aplicando cada vez mais o conhecimento em seus negócios. Cada real aplicado em conhecimento pode proporciona um retorno de dois ou muito mais reais. Além disso, convém lembrar que o mercado de trabalho é um sistema extremamente complexo, dinâmico, mutável e competitivo. Por isso é repleto de paradoxos. Temos empresas e temos talentos à disposição no mercado.

E o problema, onde está?
O problema é encontrar agulhas nos palheiros. Ainda não temos um sistema capaz de conectar e interligar com rapidez determinadas empresas que procuram determinados talentos e de conectar e interligar determinados talentos que procuram determinadas empresas. É complicado. Na verdade, o crescimento e a complexidade das empresas aumentaram muito nos últimos tempos enquanto a formação e a capacitação de pessoas talentosas não acompanharam a velocidade e o volume necessários para equilibrar as duas forças nessa frágil balança. Esse gap está tendendo a crescer, a menos que se faça algo em nosso sistema educacional no sentido de aumentar os investimentos para incrementar a formação e capacitação profissional de pessoas. E enquanto a ajuda do governo não vem com a suficiência e adequação necessárias, as empresas precisam se virar como podem para cobrir as deficiências dos colaboradores.

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