O governo federal vai gastar R$ 500 milhões até o final de 2014 para informatizar o gerenciamento dos principais portos do país, sem investir em infraestrutura.

O pacote inclui instalação de radares e câmeras de monitoramento de navios e condições climáticas –um sistema já antigo no exterior, mas ainda inexistente no Brasil.

Todo complexo portuário brasileiro movimenta atualmente 800 milhões de toneladas de mercadorias por ano e responde por 96% das importações e exportações nacionais.

Na maioria dos portos do país, no entanto, toda a demanda –que cresce anualmente o dobro do PIB– ainda passa por processos burocráticos de “um século atrás”, segundo o diretor de Sistemas e Informações Portuárias da SEP (Secretaria de Portos), Luis Cláudio Montenegro.

Com a combinação entre volume de cargas e métodos ultrapassados de gestão, a demora para se liberar uma carga no Brasil pode chegar a 17 dias, também segundo a pasta.

Comandada pelo ministro Leônidas Cristino, a Secretaria de Portos afirmou que os investimentos representam uma forma de ganhar capacidade nos portos com menor prazo e sem precisar investir na infraestrutura.

“Um porto novo demora no mínimo seis anos. Antes, precisamos destravar a questão burocrática, melhorando a gestão dos portos porque mudanças na infraestrutura são muito demoradas”, disse Montenegro.

Implantada em Santos, Rio de Janeiro e Vitória (ES) desde o ano passado e colocada em prática no início deste mês na Bahia –Salvador, Aratu e Ilhéus–, o Porto Sem Papel é a primeira dessas medidas.

O programa substitui 112 formulários que tinham de ser preenchidos com cerca de mil itens de informação sobre cada tipo de carga. A previsão é colocar o sistema em operação nos 34 portos nacionais até 2013 ao custo de R$ 114 milhões.

Outro símbolo de atraso nos portos brasileiros é que nenhum deles possui monitoramento com VTMIS, em funcionamento há cerca de 20 anos em terminais estrangeiros como o de Roterdã, na Holanda.

Trata-se de um sistema para gerenciamento de tráfego de navios, com radares, câmeras e boias, que transmite informações de forma eletrônica e imediata sobre o trânsito das embarcações.

O equipamento, inclusive, monitora condições climáticas na região portuária para auxiliar nas atracações. Santos será o primeiro a receber a novidade, que custará, em média, R$ 30 milhões em cada porto.

De acordo com o diretor da SEP, há R$ 146 milhões previstos no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para implantação do VTMIS em cinco portos. A expectativa de Montenegro é que a espera por atracação caia de uma média de seis para duas horas.

“O berço fica vazio seis horas com navios esperando. Ganhar quatro horas na operação é muito expressivo. Significa aumento de 30% a 40% na capacidade sem investir em infraestrutura”, afirmou.

EM TERRA

Há ainda planos para investir R$ 115 milhões para implantar em ao menos 12 grandes portos nacionais um método informatizado para o gerenciamento do tráfego dos caminhões nas entradas de cada terminal.

A intenção é antecipar informações sobre cargas que chegam por terra e acabar com filas de caminhões. Hoje, a operação é feita manualmente. Só no porto de Santos a demanda é de dois milhões de caminhoneiros, diz a SEP.

EM CONJUNTO
Para Sérgio Fang, coordenador técnico em logística portuária do Isecensa (Institutos Superiores de Ensino do Centro Educacional Nossa Senhora Auxiliadora), no RJ, as ações devem agilizar a operação dos terminais.

Mestre em gestão portuária, Fang afirma, porém, que as medidas não podem parar por aí, já que investimentos em infraestrutura no Brasil são essenciais.

“De nada vai adiantar investir em novos terminais, dragagem, se os sistemas de gestão continuam atrasados, burocráticos, manuais e ineficientes como são hoje na maioria dos terminais. Você se livra de um gargalo e esbarra em outro”, disse.

De acordo com o governo federal, as obras de infraestrutura não serão esquecidas e só o Porto de Santos vai receber perto de R$ 1,3 bilhão até 2017.

“Melhorando primeiro a operação do que já existe, teremos mais clareza do que será necessário em infraestrutura. Do contrário, corremos o risco de fazer investimentos exagerados em novas estruturas que podem ficar ociosas”, afirmou Montenegro.

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