Dilma e Obama (Foto: Roberto Stuckert Filho/Presidência da República)Os presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama durante encontro em Washington: agenda bilateral (Foto: Roberto Stuckert Filho/Presidência da República)

Nem bem a secretária de Estado Hillary Clinton havia anunciado a criação de mais dois consulados dos Estados Unidos no Brasil e já falava, pela primeira vez em muito tempo, no estabelecimento do livre comércio entre os dois países. Os fatos sinalizam a aproximação Brasil-EUA que deve ainda se intensificar e trazer mais investimentos da iniciativa privada para cá – e levar produtos brasileiros para lá. “Nunca houve uma convergência de fatores tão favoráveis”, afirma Gabriel Rico, presidente da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos (Amcham). Ele diz que a eliminação de vistos para turistas brasileiros em viagem ao território americano e de barreiras para a entrada de produtos não devem acontecer muito rapidamente, mas vão se concretizar no médio prazo. “É algo que não há como discutir”, diz.

Gabriel Rico , presidente da Câmara de Comércio Brasil-EUA (Amcham) (Foto: Divulgação)Gabriel Rico , presidente da Câmara de Comércio Brasil-EUA (Amcham) (Foto: Divulgação)

Também inevitável é a marcha de companhias americanas rumo ao Brasil. “Nenhuma grande empresa no mundo pode se dar ao luxo de ficar fora do mercado brasileiro. Afeta a valorização da própria companhia”, afirma Rico. Em seu papel de promotora dos bons negócios entre as duas nações, a Amcham tem publicado guias “How to Invest in Brazil”, que permitem a empresários estrangeiros entender a dinâmica da economia nacional e os entraves burocráticos na criação de uma filial. O próximo a ser lançado é do Paraná, mas o Estado não está sozinho nos esforços para atrair a atenção, principalmente dos empreendedores americanos. “Temos trabalhado muito com o governo e empresários do Pernambuco”, diz Rico. “A região de Suape cresce em um ritmo acima da China”.

  • A comparação com o crescimento chinês permeia muitas análises do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. Mas as instituições se esquecem muitas vezes de apresentar as vantagens que colocariam o Brasil em uma situação mais favorável que os outros Brics. “Temos divulgado esses diferenciais competitivos, que são importantes na definição de investimentos no Brasil”, diz Gabriel Rico. Entre eles estão o crescimento da classe média e o fato de o país ter uma sociedade multirracial e multicultural. Nada de ruim? “O nosso calcanhar de Aquiles é a perda de competitividade, o custo Brasil, que afetam inclusive nossa infraestrutura”, afirma. Sem esses problemas, o investimento de empresas americanas seria ainda maior. “Se não tivéssemos esses gargalos, estaríamos crescendo em ritmo chinês, próximo dos dois dígitos”.

Existe uma percepção hoje de que o Brasil tornou-se um país muito mais importante na agenda dos Estados Unidos. Para quem acompanhou a visita da presidente Dilma a Washington, poderia nos dizer se essa percepção é verdadeira?
É isso mesmo. A visita do presidente Barack Obama há um ano foi um marco nas relações do Brasil com os Estados Unidos e sinalizou o início de uma nova fase. Até então, as políticas norte-americanas eram voltadas para a América Latina e o Brasil fazia parte delas. A partir dali ficou evidente que o Brasil passou a ter uma agenda bilateral, sinalizando um relacionamento mais profundo e complexo. Há pouco tivemos a visita da presidente Dilma a Washington. E por fim, a visita da secretária de Estado Hillary Clinton e do secretário do interior, Kenneth Salazar. O ministro Fernando Pimentel disse muito que a relação com os EUA transcende o aspecto comercial e envolve o setor privado – que a própria presidente Dilma destacou como crítico nesse relacionamento. Se isso não bastasse, este ano teremos dois milhões de brasileiros viajando aos EUA. É um destino aspiracional da classe média brasileira. Hoje começamos a comprar ainda mais o soft power (a habilidade de atrair em vez de coagir) americano e o Brasil passa a vender o soft power brasileiro.

E esse aprofundamento de relações tem reflexos diretos no aumento de empresas americanas no país?
Aqui na Amcham recebemos de 20 a 30 empresas por mês procurando informações de como fazer negócios no Brasil. Para isso já temos 20 publicações, os guias “How to do Business in Brazil” com vários aspectos, como a instalação de uma empresa. Com a reestruturação socioeconômica no Brasil, que ampliou a sociedade de consumo, o interesse por investir no país naturalmente deve crescer. Somado a isso há um momento propício em que as grandes empresas americanas, especialmente, vivem uma fase de alta liquidez. Então, o Brasil tem mercado, tem relações diplomáticas favoráveis e as companhias têm dinheiro para investir.

O Brasil também tem juros altos, problemas de câmbio e uma carga tributária que, segundo a Fiesp, prejudicam os investimentos. 
Se não tivéssemos esses gargalos, estaríamos crescendo em ritmo chinês, próximo dos dois dígitos. Somos um país que se encaminha para os 200 milhões de habitantes [dados do Censo indicam que o país tinha 192 milhões em 2010] que há oito anos tinha cerca de 42% da população no mercado de consumo. Hoje esse número está em 75%, com maiores salários e mais crédito. É um aumento tão grande que estamos consumindo o que produzimos aqui e o que importamos. Nenhuma grande empresa no mundo pode se dar ao luxo de ficar fora do mercado brasileiro. Ter uma posição forte no Brasil é importante para a avaliação de qualquer grande empresa mundial. À medida que elas se instalam aqui, o país se torna mais e mais o centro dinâmico da América Latina.

Fila de Visto no Consulado americano em São Paulo (Foto: Folhapress)Fila para obter o visto no Consulado dos Estados Unidos em São Paulo (Foto: Folhapress)

O nosso calcanhar de Aquiles é a infraestrutura?
O nosso calcanhar de Aquiles é a perda de competitividade, o Custo Brasil. A infraesturutra representa uma parte desse conjunto. No ano passado, a Amcham promoveu 11 seminários sobre competitividade, em caráter nacional e depois regionalmente, no Paraná, em Minas, Recife, Brasília. É preciso recuperar o quanto antes essa condição. Como o Brasil não tem nível adequado de poupança, a participação do investimento estrangeiro direto (IED) é fundamental.

Tem algum gargalo para as empresas brasileiras que querem investir nos EUA?
Não na entrada, mas na fase seguinte, pois não temos acordo de bitributação. Quando as empresas precisam repatriar dividendos, a taxação é muito alta. Agora esse assunto volta a ser prioritário nas relações entre os dois países, após 40 anos na pauta. A secretária Hillary Clinton citou em seu discurso que deveríamos pensar no acordo de livre comércio. Acredito que isso seja algo para médio prazo.

De quantos anos estamos falando? Dez anos?
Não é algo que vai se resolver em um ano, mas acredito que bem menos do que dez anos. Eu vejo a possibilidade de um acordo de livre comércio na mesma proporção que a eliminação de vistos entre os dois países. Não há como ignorar. Os EUA estão aumentando o número de consulados para concessão de vistos. Dois milhões de brasileiros devem visitar o país, daqui a pouco serão três milhões. Não vamos nos esquecer que os subsídios – a questão do algodão, da laranja, da carne suína – constituem um ruído na comunicação com os EUA e vêm sendo resolvidos pontualmente. Existe um protecionismo no mercado americano, muito mais em função de políticas regionais, que custa caro. O governo Obama está direcionando sua atenção para a eliminação desses subsídios. E este é um ponto importante para o Brasil ter entrada no mercado americano e crescer principalmente no setor agropecuário. Os EUA podem entrar com fluxo de tecnologia de ponta, então começamos a falar de interesses que no conjunto podem se harmonizar.

Em quanto tempo o Brasil deveria resolver a questão da perda de competitividade para que o país não deixe de aproveitar o bom momento?
O Brasil atua em dois eixos. Um eixo envolve o protecionismo, ou seja, o país está se defendendo das próprias deficiências e das vantagens competitivas de outros países. O governo tenta defender setores específicos da economia brasileira, mas nós sabemos que esse é um remédio de curto prazo. A solução de longo prazo envolve mudanças estruturais, que passam por investimento estrangeiro, de qualidade, capaz de trazer inovação, tecnologia e aumentar a produtividade. E não tem outro país que possa fazer isso como os EUA.

São Paulo Cidades (Foto: Shutterstock)
São Paulo: esforço do governo para mostrar a empresas estrangeiras como investir no estado (Foto: Shutterstock)

A que setores pertencem as empresas americanas que têm mostrado interesse em vir ao Brasil?
Em primeiro lugar há um aumento dos investimentos das empresas americanas que já estão no Brasil. Em relação as que estão analisando o mercado, vemos um interesse de empresas que operam em nanotecnologia, biotecnologia, na área de energia, óleo e gás, no campo de etanol, com aplicação de tecnologias mais avançadas. Há muito interesse por parte de companhias da área de alimentos e de informática. Sem falar em empresas que têm interesse nos projetos dos jogos, com tecnologias como vending machines que preparam as bebidas. Alguns desses acordos para a Copa já estão sendo fechados.

Quais são os Estados que têm feito um esforço maior para atrair as empresas americanas?
O programa da Invest SP, uma empresa montada para orientar investimentos em São Paulo, é um trabalho bastante profissional e tem trazido bilhões de dólares num prazo relativamente curto. Pernambuco tem feito um esforço grande e a região de Suape cresce em um ritmo acima da China. A área ao redor do porto congrega indústria naval, um centro industrial, um pólo logístico e um centro de desenvolvimento de tecnologia, complementados por hotéis nos mesmos padrões de Miami. Tem o governo do Paraná, com o qual faremos um “How to Invest”, Minas Gerais e, claro, por questões óbvias, o Rio de Janeiro que vive um momento muito favorável.

Como é possível mostrar aos investidores americanos que nosso crescimento regional é sólido?
É um trabalho contínuo, que passa pelos números. A economia brasileira representa cerca de 3% do PIB mundial. A participação do Brasil no comércio internacional é de 1,3%. Isso mostra como somos ainda uma economia fechada. Durante muitos anos tivemos um comportamento um tanto provinciano. Está na hora de correr atrás para formar mão de obra qualificada que nos falta. Com tudo isso, a internacionalização do Brasil é um fenômeno que essa geração jovem vai vivenciar por toda a vida.

Há quem diga que ainda temos muito a fazer para ultrapassar a síndrome do vira-lata e provar que o Brasil não tem apenas potencial, que pode representar um papel importante na economia mundial. 
Queira ou não, esse momento chegou. Em todos os assuntos relevantes da agenda internacional, seja G-20 ou da Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil não tem mais como se esconder dos grandes temas. Estamos falando de um país que está apenas atrás dos EUA como maior produtor de alimento do mundo [dados da Embrapa projetam que o país ocupará o primeiro lugar até 2020], que tem 12% das reservas de água potável do mundo, 3% da população mundial, 30% do carbono florestal e ocupa da primeira à quinta posição no ranking dos 17 minerais mais comercializados. É um país com matriz energética incrível, plataforma econômica e industrial forte e que pode se tornar um dos maiores produtores e exportadores de petróleo. A importância geopolítica do Brasil também cresceu muito. Mas somos novos. O Brasil faz parte dos países Bric, mas sua participação na história mundial é muito recente. O Brasil é um adolescente no cenário internacional. E como tal, acha que por ter 1,90 m de altura já é adulto. Há muitos pontos que precisarão ser lapidados, mas isso é parte da nossa evolução.

Estudantes sul-coreanos fazem exercício em aula de inglês (Foto: Getty Images)
Estudantes sul-coreanos fazem exercício em aula de inglês: lição para o Brasil (Foto: Getty Images)

Com quem o Brasil deveria tomar uma lição rápida para crescer?
Coreia do Sul [o país é tema de uma reportagem de capa da Época NEGÓCIOS, vencedora de prêmio]. O país promoveu a maior revolução educacional, talvez da história, instituiu um programa de construção de grandes empresas para competir mundialmente e ao mesmo tempo em que se estruturou e fortaleceu sua economia, escolheu a hora certa para fazer um acordo de livre comércio com os EUA. Tudo muito rápido. Nos anos 1950, a Coreia do Sul não era nada. É o maior exemplo para o Brasil.

Resumo da história: o Brasil precisa fazer sua lição, correr atrás do desenvolvimento e olhar para a Coreia.
Nunca houve uma convergência de fatores tão favoráveis ao país. A gente aqui diz que o Brasil vivencia três viradas que acontecem ao mesmo tempo. A primeira é a macroeconômica, em que o Brasil deixa de correr atrás do FMI para renovar empréstimos e passa a ser credor, com US$ 300 bilhões em investimento direto estrangeiro e reservas internas de mais de US$ 350 bilhões. A segunda é a virada socioeconômica, com a incorporação de 50 milhões de brasileiros na sociedade de consumo [48,8 milhões migraram para as classes A, B e C desde 2003 até maio de 2011, segundo a FGV] desde 2003. E a terceira é a conquista da importância geopolítica, por todas as condições que tivemos ao longo da história e que agora o mundo inteiro está conhecendo.

Fonte: ÉPOCA NEGÓCIOS

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