Um novo cenário está sendo moldado para o porto. Com o projeto, os armazéns decadentes vão dar lugar a instalações modernas com escritórios, restaurantes, cinema, cafés, lojas. O local vai receber R$ 99,9 milhões nos próximos dois anos

Angela Fernanda Belfort e Felipe Lima // Jornal do Commercio

Os armazéns vazios e deteriorados do Porto do Recife são a parte mais visível da sua decadência. Após mais de 30 anos sem uso e pelo menos dez anos de discussões sobre o seu futuro, um projeto promete mudar a realidade do porto, do Bairro do Recife e da capital pernambucana. Um novo cenário – que parece de filme – formado por instalações modernas com escritórios, restaurantes, boliche, teatro, cinema, cafés, auditório, lojas, um memorial em homenagem a Luiz Gonzaga e uma central de artesanato vão substituir os quase centenários armazéns do antigo porto, ancoradouro que deu origem à cidade. Batizado de Porto Novo, o projeto prevê a instalação desses empreendimentos numa área que vai do armazém 9 ao 14, ocupando uma extensão de 1,3 quilômetro do cais da estatal. Os armazéns 7 e 8 serão transformados num terminal marítimo de passageiros de padrão internacional e integrado a essa nova área de entretenimento e lazer. O local vai receber um investimento de R$ 99,9 milhões, nos próximos dois anos.

No projeto, o armazém 9 vai abrigar escritórios e lojas. O Memorial Luiz Gonzaga será construído no lugar do armazém 10, enquanto no 11 será a central de artesanato, com um espaço de trabalho e de exposição. O 14 continuará com a sua vocação e terá um cineteatro com 160 lugares, um teatro de 400 lugares e um boliche. No lado externo do 14, será construída uma praça com palco ao ar livre para outros eventos. Na internet, há um vídeo com as mudanças (www.youtube.com/watch?v=9mckk7ZT7bs).

“Esse projeto será a verdadeira revitalização do Porto do Recife. A economia vai voltar a circular por aqui”, argumentou um dos arquitetos responsáveis pelo projeto, Zeca Brandão. O Porto do Recife contratou o consórcio Braenge e Gusmão para fazer as obras de urbanização da área (do armazém 9 ao 14), que foram iniciadas no começo deste mês. Até fevereiro, a estatal vai lançar uma licitação para fazer a reforma dos armazéns 9 ao 14. Ambos os serviços serão bancados pelo Estado, que também vai pagar os R$ 2,9 milhões da central de artesanato. Já a União vai entrar com os recursos no Memorial Luiz Gonzaga (R$ 26 milhões) e no terminal marítimo de passageiros (R$ 21 milhões) do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Copa.

A expectativa é que as obras de urbanização e reforma dos armazéns sejam concluídas até o final de 2012. Quando elas estiverem perto de serem finalizadas, será lançada uma nova licitação para definir a ocupação desses espaços pela iniciativa privada, segundo o diretor de Operações do Porto do Recife, Hermes Delgado. A perspectiva é que o arrendamento das áreas aumente em 80% a receita do Porto do Recife, que foi de R$ 18 milhões em 2010.

A ideia de transformar os antigos armazéns numa área de entretenimento e lazer vem sendo discutida há dez anos. Em 2003, o projeto ganhou nome: Complexo Turístico Cultural Recife-Olinda, saindo do Cais José Estelita, na capital, até a orla de Olinda. “Para ter viabilidade econômica, era necessário que toda a área do projeto fosse administrada por uma única organização, o que não ocorreu”, lembrou o ex-secretário de Ciência e Tecnologia no governo Jarbas Vasconcelos, Claudio Marinho, que esteve à frente do projeto.

O projeto atual vai fazer modificações apenas na área portuária que não está sendo usada pelo Porto, alterando a paisagem dos armazéns 9 ao 14 na primeira etapa e, numa segunda fase, vai revitalizar os armazéns 15,16 e 17 e comprar o antigo prédio da Conab, localizado ao lado do armazém 15. “O projeto foi subdividido para o bem da cidade. Com isso, ele ganha mais viabilidade econômica. Isso é bom para o Porto Digital, que tem 142 empresas que precisam de serviços”, comentou Marinho, que tem um escritório no Bairro do Recife.

“A ideia de dividir o porto foi brilhante, porque o local não estava sendo utilizado. A receita gerada com o arrendamento da iniciativa privada poderá ser empregada para manter a dragagem e a infraestrutura necessária à movimentação de cargas, incluindo novos investimentos”, disse o presidente do Sindicato das Agências de Navegação Marítima do Estado de Pernambuco (Sindanpe), Ricardo Von Sohsten.

Os armazéns 9 ao 17 deixaram de ser usados para carga porque eles foram construídos numa época em que grande parte do que era consumido no Estado chegava pelo Porto e não se podia misturar cargas como alimentos (açúcar e trigo) com cimento ou fertilizantes. A área do cais entre os armazéns 9 e 14 é a que tem menos profundidade de atracação. Nas últimas duas décadas, os navios ficaram maiores, exigindo uma profundidade maior para atracar. Tudo isso fez esse pedaço do Porto do Recife parar no tempo.

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