Com retomada do investimento, indústria reclama da infraestrutura

Apontado como um dos gargalos que impede a economia de alcançar sua máxima potência, o descompasso entre produção e a forte demanda está na lista empresarial de problemas a serem solucionados já neste ano. Em pesquisa recente, a Fundação Dom Cabral apontou que 91% já retomaram os investimentos paralisados com a crise.
 
A FBCF (Formação Brutal de Capital Fixo) avançou 26% no 1º trimestre do ano, sob igual período anterior. Apresentando maior incremento desde 1995, ficou bem acima do PIB (Produto Interno Bruto), de 9%, registrado no período, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os empresários sentem, no entanto, que alguns entraves podem desacelerar esse crescimento.
 
“São relacionados com mão-de-obra e, principalmente, infraestrutura no Brasil”, comenta Paulo Resende, coordenador do Departamento de Infraestrutura e Logística da fundação. Ele conta que algumas empresas não conseguem aumentar suas redes de produção porque não encontram funcionários especializados; 67% têm dificuldade para fazer contratações. “Uma das empresas disse que se tiver dificuldade com mão-de-obra aqui, investirá na Argentina”, comenta.
 
Pelo lado da infraestrutura, o calo dos empresários aperta na hora de importar matéria-prima, escoar produtos para o mercado internacional e levar uma carga de um lugar para outro dentro do território nacional.

Estrada ruim aumenta custo em 30% por km
 
“Investimento é bom por aumentar a capacidade de produção. E, na maioria dos casos, fazem isso com a incorporação de novas tecnologias. Produz mais e mais barato”, explica Leonardo Carvalho Mello, pesquisador do IPEA (Instituto de Pesquisa Economia Aplicada). E é isso que o empresariado está fazendo. De acordo com o levantamento, 33% direcionam os recursos para novas instalações fabris.
 
Empatados em segundo lugar na preferência do direcionamento de investimento estão o aumento da frota e a construção de armazéns, com 29%. Se o aumento do número de fábricas está ligado diretamente ao aquecimento do consumo, remeter recursos a estes dois quesitos supre a falta de infraestrutura.
 
“As estradas ruins aumentam o custo operacionais em 30% por quilômetro”, explica Resende. Com isso fica mais caro levar insumos às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oestre, distantes dos portos e com rodovias em péssimas condições. Como são elas que mais crescem no Brasil, o país estrangula aos poucos sua competitividade. Soma-se a isso as restrições de circulação de caminhões, que alguns centros metropolitanos impuseram recentemente.
 
Já os investimentos em armazéns são feitos para solucionar o problema anterior. Para diminuir os custos com deslocamentos, as empresas preferem gastar com estocagem. “Quando investem em armazenagem no Centro-Oeste, elas têm a condição de levar volumes maiores para lá”, declara.

“Nós temos medo de ficar rico”

O avanço da inflação forçou o BC (Banco Central) a puxar as rédeas da política monetária e aumentar os juros. Em duas elevações, a Selic chegou a 10,25% ao ano. “Já temos um problema de cumprimento de meta, apesar de termos um bom desempenho das taxas de formação de capital fixo”, alerta Carvalho, do IPEA.
 
O pesquisador explica que a inflação acumulada em 3% foi alcançada devido ao choque nos preços de alguns itens no começo do ano, como transporte e alimentação, e principalmente pela forte demanda interna. “Embora o consumo esteja acima do desejado, em função dos nossos limites de produção, foi ele que estimulou o empresariado a voltar a investir”, comenta.
 
Esta percepção alimenta a teoria de que enquanto os consumidores querem comprar mais, a indústria não fabrica com tanta intensidade, por conta da falta de investimentos na capacidade produtiva. “Eu refuto essa tese. Acho que no Brasil não conhecemos a realidade de uma demanda sustentável”, rebate Resende, da Fundação Dom Cabral. “É um país cuja sombra da inflação é maior do que o Sol do crescimento. Nós temos medo de ficar rico”, completa, investindo contra a política de juros altos.
 
Resende explica que a capacidade produtiva sozinha não é suficiente para culpar as empresas pela inflação. Ela deveria ser aliada às vendas. “O volume de vendas associada ao nível de utilização da capacidade de produção não está saturado. A cadeia de suprimento está sendo preparada para a demanda ocorrer, mas temo que lá frente alguém vá pisar no freio e pode haver capacidade ociosa”, completa. Ele aponta como riscos, caso isso aconteça, de haver novas demissões e a indústria ser obrigada a parar as máquinas.

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