O prêmio Nobel do Empreendedorismo

13/08/2012

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O que um professor de empreendedorismo pode ensinar? Eu me senti um pequeno aprendiz quando me reuni com Dan Shechtman semana passada, afinal ele já ministrava a disciplina de empreendedorismo no Technion, um dos mais respeitados institutos tecnológicos do mundo localizado em Haifa, Israel, há 26 anos.

Era o dobro da minha experiência como docente. Já tinha conhecido boa parte dos grandes professores de empreendedorismo do mundo, mas Dan era diferente. Tinha chegado a uma posição que nenhum outro conseguiu chegar.

A ideia era falarmos de educação empreendedora, mas ele começou a narrar sua experiência no ensino de ciências no jardim de infância nas escolas em Haifa.

Com uma simples régua, a criança pode investigar o mundo – explicou. Pode medir a altura de um copo assim como seu diâmetro. Pode descobrir quanto um objeto é mais alto que outro. Com um termômetro, pode descobrir os conceitos de mais quente ou mais frio.

E o mais importante: a partir de uma régua ou termômetro, a criança descobre a importância do método para descobrir coisas novas.

Crianças são naturalmente curiosas, mas aparelha-las com métodos de pesquisa era de uma simplicidade desconcertante para mim, que também sou pai, professor e pesquisador. Já estou testando a ideia do mestre: minha filha de três anos já ganhou uma régua.

Em seguida, Dan explicou sua ideia de traduzir os projetos que ganharam prêmios Nobel do inglês para o hebraico e distribuí-las em todas as escolas de ensino fundamental e médio de Israel.

Há algum tempo, a Academia Real das Ciências da Suécia, responsável pelos prêmios Nobel de Física e Química, divulga um documento onde apresenta, em linguagem popular, o projeto ganhador.

A ideia de traduzi-lo era para que toda criança ou adolescente de Israel tivesse a chance de entender e principalmente discutir com seus professores, colegas e familiares como aquela ciência tinha sido desenvolvida e quais eram suas implicações práticas.

Mais uma ideia simples, barata e de grande impacto. Sugeriu que fizéssemos o mesmo no Brasil. De novo, tentei repetir a lição do mestre: enviei uma mensagem à Academia perguntando se poderíamos fazer algo semelhante.

Por fim, Dan explicou que de nada adianta motivarmos crianças e jovens a serem cientistas brilhantes se não houver incentivo para que se tornem empreendedores. Novos conhecimentos não têm valor se não aplicarmos para o bem estar da sociedade.

Este foi seu motivo para se tornar professor de empreendedorismo mesmo contrariando seus colegas. Para que incentivar o aluno a criar uma empresa quando ele pode ter os melhores empregos que desejar? – questionavam. Mas mesmo assim, criou a disciplina de empreendedorismo.

Aqui foi o momento que mais me aproximei de Dan, afinal também sou professor de empreendedorismo. Mas parou aí. Em 2011, Dan Shechtman ganhou o Prêmio Nobel de Química pela sua descoberta dos quasicristais, uma nova categoria de materiais sólidos.

Mas Dan é o exemplo de que não é necessário ganhar o Prêmio Nobel para mudar o mundo. Basta ter a curiosidade dos cientistas e a capacidade de colocar suas descobertas em prática. E isto todos nós temos, ou tínhamos no jardim de infância.

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Marcelo Nakagawa é Professor e coordenador do Centro de Empreendedorismo do Insper
BRASIL ECONOMICO

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