A Fiat ainda não iniciou as obras em Goiana, mas já trouxe mudanças profundas e fez famílias acreditarem num futuro melhor
Giovanni Sandes

Na cidade da cana-de-açúcar, só se fala em indústria automotiva. A Fiat ainda não começou as obras de sua fábrica em Goiana, no Litoral Norte, mas já mudou a vida e o modo de pensar de milhares de pessoas no município, parte principal do novo motor econômico de Pernambuco. A expectativa pela Fiat fez o mercado imobiliário disparar, cortadores de cana enveredarem pela construção civil, empresas grandes e pequenas investirem em novos negócios e o principal: famílias acreditarem em um futuro melhor para os filhos do que cumprir a sina de pobreza de seus pais.
Desde ontem, os principais executivos da Fiat e jornalistas de todo o Brasil estão no Recife, onde ficam até amanhã para lançar nacionalmente novos modelos da marca. É o primeiro grande evento comercial da montadora no Estado, desde o anúncio dessa indústria gigante, que vai empregar até 7 mil pessoas na construção da fábrica e 4.500 quando ela começar a funcionar, em março de 2014, sem falar nas dezenas de fornecedores.
O investimento italiano de R$ 4 bilhões é um novo marco de estrangeiros na história de Goiana, famosa pelas Heroínas de Tejucupapo, que, em 1646, evitaram que os holandeses saqueassem a cidade. Na linha de frente dessa nova história está a estudante Leandra de Santana dos Santos, 18 anos, filha de uma doméstica que sustenta a jovem e seus dois irmãos. Leandra estuda eletrotécnica no Programa Nacional de Acesso à Escola Técnica (Pronatec) Automotivo.
“Minha mãe fica preocupada um pouco porque é uma área nova, que tem seus riscos. Mas ela me incentiva muito. No futuro, quem sabe, depois de trabalhar para os outros, terei meu próprio negócio”, afirma Leandra.
Na corrida por um futuro diferente também estão os Severinos de Goiana. Um está na juventude e nas primeiras batalhas por emprego, o estudante Severino José da Silva, 22 anos. O outro é um ex-cortador de cana e desempregado, José Severino de Souza, 54 anos. Ambos querem trabalhar na construção e, assim como Leandra, dizem que o que vier será lucro. Mas cada um tem seu plano.
“Eu trabalhava em uma usina, mas era ruim porque só tinha emprego durante 6 meses. Nos outros 6, ficava fazendo bico, às vezes de servente de pedreiro. Vou trabalhar onde me chamarem. Mas estou de olho nesse conjunto aqui perto”, comenta Severino – o de 54 anos.
O “conjunto” são as obras do NorthVille, primeiro bairro planejado da cidade, estimado em R$ 1 bilhão, que já está na terraplenagem. O projeto é do Consórcio Paradigma, um novo grande passo de três construtoras pernambucanas de médio porte: AWM Engenharia, São Bento Incorporações e CA3 Construtora. Serão 2.200 moradias para atender a expansão habitacional no rastro da Fiat.
Em vez de partir direto para o emprego novo, o Severino mais novo, de 22 anos, optou por um curso no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Ele vai ser armador de ferragens. Mas é só o primeiro passo da mudança de vida. O jovem quer fazer caixa para, mais na frente, estudar o que gosta. “Moro com meus pais. Quero fazer meu caminho. Pretendo mesmo estudar química. É meu sonho”, diz Severino José.
A vontade de mudança chegou mais rápida para o comerciante Moabe Balbino, 43 anos. Ele foi o primeiro de Goiana a abrir uma loja de móveis para escritório, quando começaram a ser anunciadas na cidade as primeiras indústrias. Até então, ele vendia e consertava bicicletas. “Hoje não preciso mais sujar a mão de graxa”, brinca.
Moabe lembra do pai, há 60 anos, vendendo carne no mercado público, e depois, nos anos 70, no ramo móveis e eletrodomésticos. Apesar disso, Moabe teimou em outro ramo. Passou 5 anos trabalhando com bicicletas. Até que, no final de 2010, percebeu que o destino de Goiana poderia ser diferente e tomou rumo novo.
O anúncio da ida da Fiat para Goiana, em agosto passado, só fez consolidar a decisão pelo novo negócio. Também vieram os concorrentes, porém Moabe nem liga. Acha que o futuro da cidade é maior do que brigar por cada cadeira de escritório vendida. “Fui o primeiro do ramo. Agora somos quatro. Mas não tem problema não. Cabe todo mundo”, resume.
Estado gastou R$ 81,9 mi na terraplenagem
O governo estadual literalmente já preparou o terreno para as obras da Fiat, em Goiana. Bancou os R$ 81,9 milhões da terraplenagem e entregou tudo no prazo. A montadora informa que está refinando o projeto executivo da fábrica e diz que, por enquanto, não pode informar uma nova estimativa para o início das obras civis da montadora. Apesar de ninguém se dizer preocupado quanto a supostos atrasos das obras, a expectativa é grande quanto a um sinal verde da montadora.
“Estamos aguardando a sinalização da Fiat. Terminamos a área prioritária do terreno, o que permite a construção, e o licenciamento ambiental ficou pronto em abril”, diz o secretário executivo de Projetos Especiais, João Guilherme Ferraz.
Um primeiro pedido da Fiat sobre informações de candidatos a emprego animou a Agência de Desenvolvimento de Goiana (AD Goiana). Semana passada, a montadora pediu um lote de cadastro e recebeu 200 fichas de candidatos a um emprego. “A população tem se preparado. Está fazendo cursos, correndo atrás”, afirma o presidente da AD Goiana, Rodrigo Augusto. Ele chama a atenção para o predomínio de mulheres nos cursos de preparo de mão de obra.
Cleiciane Faustino, 19 anos, filha de enfermeira e de um pedreiro desempregado, estuda eletrotécnica em uma turma de 20 alunos, com dois homens. Ela ri e diz não saber explicar porque a maioria é de mulheres. Conta que pretende se formar no curso, com 1 ano e 3 meses de aulas mais 4 meses de estágio, e que vai complementar a formação com o NR-10, curso em segurança na área elétrica.
Cleberson João do Nascimento, 17 anos, e José Martins dos Santos, 19 anos, da mesma turma de Cleiciane, arriscam dizer que a maioria dos homens procura uma oportunidade de renda mais imediata. Poucos têm paciência de primeiro estudar para, depois, tentar um emprego melhor.
O que une todos, apressados ou pacientes, homens e mulheres, é a espera pela Fiat.
JORNALDOCOMMERCIO


































21/06/2012 às 12:38
Alguém saberia dizer, qual a construtora que fará as obras da fábrica da Fiat?
15/06/2012 às 12:54
Grande Fernando, uma pergunta para as pessoas que sonham em trabalhar nesta fábrica da FIAT …. que sugestões de capacitação o senhor poderia dar, com a sua experiencia?
15/06/2012 às 13:10
Márcio, o Governo do Estado em parceria com o SENAI e a própria empresa FIAT está fazendo este trabalho, mapeando as funções Pará treinamento. Sugiro um contato com a Secretaria de Trabalho e Empreendedorismo na Agencia do Trabalho em Recife.
15/06/2012 às 13:12
Obrigado pela dica, que sirva para todos que lerem essa matéria.