O presidente do Porto Digital, Francisco Saboya, e o cientista chefe do Cesar, Silvio Meira, falam sobre o crescimento do setor e sua participação na economia de Pernambuco. Também abordam as articulações para entrarem na cadeia produtiva do petróleo no Complexo de Suape e destacam que as empresas brasileiras não costumam investir em inovação porque não têm competidores no mercado interno
JC Há 10 anos, qual foi a proposta de criação do Porto Digital?
SILVIO MEIRA Era a de ter participação de 10% no PIB de Pernambuco, o que representa 200 empresas, cada uma empregando 100 pessoas, em média. No mundo todo, a prática mostra que cada trabalho em tecnologia de informação, a partir de um certo nível de sofisticação, gera em média cinco empregos fora do setor. Então, o setor vai gerar 20 mil empregos diretos em engenharia de software ou em design, ou games ou na economia criativa, e mais 80 mil indiretos. O nível médio de salário no Porto Digital é três vezes e meio maior do que o nível médio de salário no resto da economia ao redor dele. A proposta inicial do Porto Digital também era recuperar o Recife Antigo.
JC Qual o impacto disso?
FRANCISCO SABOYA Essa meta de geração de emprego, hoje, se torna mais difícil em função de Pernambuco ter feito um encontro tardio com a Revolução Industrial e a componente industrial clássica volta a crescer em termos de participação relativa do PIB. Mas não nos tira do nosso propósito de continuarmos sendo um centro de excelência na produção de software e de coisas bacanas que sejam suportadas por software.
MEIRA O Porto Digital tenta brincar sério com o slogan Pernambuco Falando para o Mundo, mas é Pernambuco Fazendo para o Mundo. Essa é também uma das ideias fundadoras do Porto Digital: tirar todo mundo da casca de proteção e olhar para um mercado regional, limitadíssimo. Por mais que Pernambuco tenha crescido ele é menos de 2,5% do mercado nacional. Faltam políticas de explosão para o desenvolvimento regional. Nosso principal escritório de negócios vai ser em São Paulo. O Cesar tem 42 clientes dos quais, deve ter três no Nordeste.
JC Qual a participação de Pernambuco no faturamento do Porto Digital?
SABOYA Estimamos que 70% do faturamento das empresas do Porto vem de fora de Pernambuco. O que a gente pretende é desenvolver a partir daqui soluções para outros mercados e não transferir a competência para lá.
MEIRA Há empresas que tem 100% do seu faturamento fora de Pernambuco. O Cesar é quase 100%. Em média, 75% de tudo o que se faz no Porto Digital é exportado, tanto pode ser exportado para a Paraíba como para a China. Então, você traz o dinheiro de fora para cá, transforma 70% em salário e joga imediatamente na economia. Mas, infelizmente no caso do Brasil, imposto come a metade do valor do trabalho. Vez por outra, há uma discussão maluca que as empresas de software não conseguem vender muito para Recife, ou para Pernambuco, ou Campina Grande. Eu contraponho com um argumento: se Bill Gates tivesse uma grande ajuda da Prefeitura de Seattle, até hoje ele seria o maior vendedor de software para a Prefeitura de Seattle. Mas o mercado dele é o mundo. O mercado de um jogo da Playlore (empresa instalada no Porto Digital) é o mundo. No Brasil, 65% de todos os negócios de tecnologia de informação são feitos em São Paulo. O mercado mundial de software é de US$ 500 bilhões, os EUA consomem 40% de todo o software produzido no mundo (US$ 200 bilhões), o Brasil, US$ 15 bilhões (7,5% do mercado americano), Pernambuco é 2,5% do mercado Brasil. Você quer fazer uma empresa de software aqui e vender aqui? É a mesma coisa que dizer: Vou fazer uma carreira milionária na música dando show na Bomba do Hemetério.
JC Mas o Porto Desembarca parece ser Pernambuco falando para Pernambuco.
MEIRA A gente tem um compromisso com o desenvolvimento regional. No Porto Desembarca a gente olha para problemas que podem ser escalados globalmente. Toritama é o maior fabricante de jeans do Brasil, mas o Paquistão é o maior fabricante de tecidos do mundo. Se a gente fizer alguma coisa de classe mundial em Toritama, botamos a mala nas costas e vamos vender em Islamabad. Essa é a inteligência que está por trás do Porto Desembarca. A ideia é ir até esses setores econômicos no Estado, descobrir que problemas enfrentam e criar e desenvolver soluções inovadoras para esses problemas.
SABOYA O critério de seleção desses projetos é, sendo um programa local, o proponente tem que provar que ele é escalável e que a solução dele é inovadora. O problema dos demais setores produtivos, ao mesmo tempo em que gera uma boa oportunidade de negócio, dá mercado para as empresas de software na escala global. O Porto Desembarca é uma política pública. Não é caridade tecnológica.
JC O Porto Digital se articula para se inserir numa escala global em Suape?
MEIRA Não há uma fábrica de navios em Suape, mas uma montadora, que são os sistemas. E os sistemas já vêm todos prontos. Essas cadeias de valor são desenvolvidas globalmente e leva muito tempo para você entrar numa delas. Pernambuco está entrando em algumas dessas cadeias. Por exemplo, em função de um esforço que já dura 15 anos, o Cesar é parte da cadeia de valor da Motorola, da Samsung e da Sony Ericksson.
SABOYA O Porto Digital está chegando, sim, junto dessa grande cadeia de petróleo e gás, que de resto se configura como uma alternativa. Há uma decisão estratégica do governo de priorizar o pré-sal como sendo uma alternativa para o País. Já temos um contato muito próximo com o pessoal da Petrobras, não só no plano local, na refinaria, como no Rio, com o CEO da Petrobras (Sergio Gabrielli). Não há nada definido obviamente, mas construímos esse caminho, que vai levar à contratação de uma aplicação inovadora para a Petrobras. Esse é o caminho que estamos construindo e que passa pelo desembarque em Suape, por uma apresentação da nossas empresas para as empresas de Suape. Houve um seminário e a gente vem fazendo isoladamente um conjunto de reuniões com alguns empresários e muito intensamente com o pessoal do estaleiro e da refinaria. Ou seja, estamos construindo conexões.
JC A criação do Porto Digital se deu na Era Jarbas. Não ficou nenhum ranço político?
SABOYA Não. Foi uma posição superdemocrática naquela ocasião, que representou a expressão da universidade, empresas e pessoas do governo compartilhando problemas e estratégias comuns. Pela performance que gerou, o Porto Digital nunca foi politizado. Teve e continuou tendo apoio de todos os partidos e gestores, na prefeitura ou no Estado. Roberto Magalhães já apoiou o Porto Digital tanto quanto João Paulo apoiou o Porto Digital, João da Costa, Eduardo Campos.
JC Como vocês estão percebendo a economia local?
MEIRA Há um problema que é a recriação de um capitalismo tecnológico de base local. Pernambuco já chegou a fazer parte, na década de 70, 80, da cadeia de valores da produção de automóveis, com uma montadora da Willys ou Ford, que ficava em Jaboatão. A gente precisa ter capitalismo local, com tomada de decisões globais. Eu já discuti isso no Conselho Estadual de Desenvolvimento Social mais de uma vez. Temos que ter rodadas de empreendedorismo que criem os novos Brennands, mas nessa nova economia. Quando você olha para a economia industrial, você tem uma companhia industrial de vidro, uma companhia de cimento que são pernambucanas, tomam decisões globais a partir daqui ou globais na escala deles. Na nova economia o que é que vai acontecer? Quem cria negócios é investimento, não é conhecimento. Se você for olhar a história do Silicon Valley, do cinturão ao redor de Boston, de Nova Iorque, Londres, Oxford, Cambridge, você vai descobrir que são investidores de capital, com uma agenda inteligente e com conexões de classe global que criam negócios. Perdemos oportunidade porque não temos tido a capacidade de convencimento de uma larga parcela do capitalismo. Você monta uma fábrica de biscoito que entra trigo, sal e manteiga de um lado e sai biscoito do outro lado sem ninguém trabalhando no meio. Aí você diz: Ah, porque o capitalista é do mal. Mas essa fábrica vai exportar biscoito para a União Européia. E o crivo de qualidade para essa exportação determina que não pode ter ser humano no ambiente onde está sendo feito o biscoito. Por definição sanitária a fábrica tem que ser um robô. Então onde é que a gente cria ocupação humana? Na produção de robô. Recife sistematicamente tem aparecido nas competições mundiais de robótica estudantil e ganho algumas dessas competições. A gente deveria ter uma área de robótica no curso de engenharia da computação do Centro de Informática. A eletrônica deveria se juntar com a mecânica, e ter um curso de robótica inteiro, não para dar manutenção, mas para fazer robô.
JC Que inovação seria a mais relevante das últimas décadas?
MEIRA As grandes inovações são sociais. A maior inovação dos últimos 50 anos é a internet. Aí vem a pergunta: quem criou a internet? Milhares de engenheiros, cientistas, políticos desenharam o negócio internet. O conceito original é de 1968 e vem se reprocessando, se redesenhando, se reconstruindo no tempo. De vez em quando alguém chega para mim e diz: que negócio inovador! Então eu digo: vamos projetá-lo 500 anos à frente. Daqui há 500 anos esse negócio vai permanecer ou não? Se você for daqui para 500 anos à frente você vai ver a internet. Criativa, inovadora, e que mudou completamente a economia, a sociedade e a articulação do planeta todo. Da mesma forma, quando você olha para trás, e em 1454 você olha para Gutenberg. Foi há 500 anos atrás e está ainda aqui hoje.
JC Falta ao empresário pernambucano perceber a importância da inovação?
MEIRA Isso ocorre em todo o Brasil, que é um mercado extremamente fechado. Tente encontrar num supermercado na Inglaterra algum produto made in UK. Vai ser difícil, porque no mercado inglês 75% de tudo o que é consumido é feito fora. Eles se concentram em fazer os 25% restantes onde eles são muito bons, ou seja, se concentram em competitividade global. No Brasil a gente se concentrou em proteção local, a maior parte das empresas brasileiras não têm competidor. Se você não tem, não precisa inovar. Podemos resumir o cenário brasileiro da seguinte forma: mudamos, mas mudamos devagar.
Jornal do Commercio



































19/06/2011
MEIO AMBIENTE, TECNOLOGIA E INFORMÁTICA